quinta-feira, 19 de março de 2015

Viação LEMINSKI

 - Influências catatais transitando pelo Tarumã – 


/Eu tinha o creme de leite 
 Também os ovos e a massa 
 O queijo gruyère já ralado 
 E um pouco de pimenta do reino 
 Havia até um vinho especial, 
 Para fazer um belo prato ao molho branco.. 
 Mas eu não tinha a quem servi-lo. 
     Tem coisas na vida 
     Que por mais deliciosas sejam 
     Há de serem compartilhadas 
     Por um quórum mínimo de dois... 
 Por isso, 
 Uns não sentem sabor na vida 
 Eu sinto, 
 Pois me alimento com o silêncio.../ 

/Uma ilha 
 Uma rede na sombra 
 Livros e água de coco.. 
 Depois de complicar durante toda a minha vida 
 Fui saber que só precisava simplesmente disso.. 
     Ainda há tempo 
     Mas estão acabando os cocos 
     Ou seriam as sombras infinitas.../ 

/Órfão citadino  
 Quero ser adotado pelo litoral 
 Para viver um tempo acolhedor 
 Livre de espaço 
 Emancipando a minha incapacidade de amar../ 

 /Oscilo entre poesias e pensamentos 
  Num mar cujas ondas têm baixo comprimento 
  Exagerada calmaria, 
  Que me permite navegar entre vagas de palavras 
  Na maré que não me leva a lugar nenhum 
  Porque o importante é me molhar.. 
      Basta das vidas secas 
      Melhor ou mais emocionante, 
      É o risco de se afogar../ 

/Um exército de pensamentos 
 Invadiu a minha república de poesias 
 Trancafiou os contos 
 Torturou poemas 
 Exilando amores vis 
 Instalando em mim regime de exceção.. 
 Simpática ditadura, 
 Em que eu já sou um marechal.../ 

/O desaparecimento do gato Astolfo 
 Só importa aos seus donos 
 A morte de Emanuel, 
 A praticamente ninguém.. 
     São os inumeráveis referenciais da vida 
     Frente nossa ignorância relativa às ausências 
     O não aprendizado das essências, 
     Estúpida escolaridade de subtrair../ 

/A cor da lágrima 
 É a mesma das águas, 
 Da chuva, dos rios, lagos e oceanos 
 Também da alma, do espírito e do éter.. 
 Só não é igual à cor do amor 
 Pois esse não é translúcido como todos os outros 
 Ele é verde quando nasce, 
 Branco enquanto dura 
 E vermelho quando morre.../ 

/Aranhas mudas morrem em decúbito ventral 
 Pelos cantos da pequena habitação 
 Eu sobrevivo em vertical supino 
 Para que o vento consolide lá fora meu peito aberto de silêncios../ 

/Ninguém consegue chorar uma só lágrima 
 As lágrimas são pares 
 Por causa dos olhos 
 Por causa dos olhares 
 Também pela reciprocidade, 
 Se ausente 
 O que impulsiona a corrente 
 Das lágrimas da gente... 
     Quando morrem os dois 
     É para renascermos independentes em cada um../ 

/Deixei a folha em branco 
 Havia paz antes de escrever 
 Eu não queria macular esse instante 
 Foi então que eu guardei os papeis 
 E saí naquela noite às ruas caminhando em negrito../ 

/Minha galeria 
 É dos quadros das mulheres sem rosto 
 Silhuetas tão fortes 
 Cabelos permeando a aura 
 Dos desejos que eu não matei em mim.. 
 O negro da sombra que domina a face no retrato 
 Corresponde a tudo o que não aconteceu 
 Meu coração parede 
 Pensamento que moldura 
 Nesta vernissage eternamente fechada ao público../ 


Nenhum comentário:

Postar um comentário