segunda-feira, 28 de agosto de 2017

PHilosofando Loas




O não amor. Não é o contrário de amor, é apenas a falta de sentimento mútuo entre duas pessoas minimamente conhecidas. Não tem a ver com desamor, que implica no fim ou na evitação de um sentimento. Mas também é diferente do nada. Este, nem se discute, muito menos se redige sobre ele. O não amor é algo. Que existe, seja apenas de um lado só. Distingue-se ainda do amor platônico, que é um sentimento impossível que não cabe ser chamado de amor, porque é destituído de recíproca, ‘platonismo’ seria melhor. O não amor, parece uma perspectiva ausente, ele é uma perspectiva ausente. E por ser assim, diferencia-se do nada, do coisa alguma. Por ser algo que é, pode ser discutido e bastante redigido. O não amor é uma filosofia sem tempo, uma sociologia sem espaço. Alguma ciência, pode determiná-lo, bem como as coisas que dele emanam. Um olhar castanho e profundo, indicando um mundo não estranho. Ouso, virtualmente, furtar-lhe uma identidade, pensando que nos daríamos muito bem. Mas é apenas uma opinião, pois a perspectiva é ausente. Então, não tento aproximação. Vejo do alto do morro, a praia no colo da baía, a calmaria das ondas dormentes na areia mansa dali, daquela paisagem. Sinto paz ao olhar para ela. Muita paz, um quase conforto. Ontem era assim, hoje talvez seja mais ainda. Não falarei do amanhã. É inevitável poetizar essa mulher. Mas eu preciso me proibir. Se a paz é a primeira impressão, imaginar o que haveria de vir adiante, adentro. Lembro-me de que eu não acredito no amor. Aí, eu encerro a escrita. Estou em paz. Outra forma de paz, eu não compreenderia. Assim, eu prefiro manter por ela o não amor. Assim, o sol não me queima. E assim, toda manhã é domingo. Toda manhã nasce e morre uma perspectiva que não se estende além do morro, do usual, nem mesmo do princípio... 

Morning Has Broken - Cat Stevens - Monalisa Twins


sábado, 26 de agosto de 2017

Relações Centrífugas




Relações amorosas
Conjugais, estáveis, não importa
Às vezes, campo de acordos
    negócios, contratos
Ora no escambo, ora no fiado
Sensação de ser a casa,
    apenas um pequeno mercado..


Seu bem,
Só seu
Mas também,
Ele é de alguém
Que você não conheceu
Nem você, só eu
Um alguém que não lhe tem
E por isso, ninguém
É de ninguém
Só o Zébedeu
Que a terra já comeu..


As caçadoras da noite
Usam véu de led
Que não tapa os olhos
Mas disfarça muito bem o hálito...


O amor
É um cachorro morto dentro de casa
Que ainda não enterramos
Porque não temos jardim
Nunca tivemos um jardim
Onde plantássemos vida...


Ela foi seduzida
Deixou a família e foi ao cinema
À frente da ficção
Sua realidade enchia-lhe a mão
De outras sementes que ignorava..


Quem prefere gente mais nova
Quer voltar para onde nunca esteve
Envelhecendo ao quadrado
Pois desloca-se ao passado
E à frente onde nunca chegará...


Ela tem um amor
Um homem perdido na cidade
Com endereço fixo e acesso
E por assim ser,
    o evita
É porque ela gosta de mulheres
Outra razão
Para fugir daquela perigosa sensação..


Um era feio e inteligente
Outro, bonito e burro
Ela pulou do muro
No colo da beleza
Sentia-se princesa na rua
Mas em casa,
    era só o diálogo que empacava..


Coitada da mulher do Juarez
Gozou uma só vez
Nas outras foi teatro
Uma peça-casamento
Em cada ato,
   um lamento..


Não me peça para falar de amor
Deixe isso para os diabéticos
Eles conhecem os açúcares
E sabem onde foram parar...


A certeza de não mais amar
Fez-me casar com a praia
Sem benção nem cerimônia 
Somos eternos noivos 
Casal moderno
Somos novos
Ela nua,
    e eu sem terno..




Crônica Cotidiana 51




Acidente ou Probabilidade? 

Sábado típico na cidade imprevisível das pessoas atávicas. Direito de ir e vir. Ausência de ementa, conflitos sobre o asfalto parecem gametas em inseminação artificial, poucos desembocam na justiça para reprodução. O ligeirinho atravessado no cruzamento do 1º DP sem um pedaço da lataria, imaginar o que sobrou da estrutura da vítima, já não mais ali entre os curiosos, a turba hematófila. Um ônibus da J. Araújo trancando o caminho na curva da Dr. Faivre – aquela que ninguém sabe pronunciar ainda. Mas era porque outro ônibus da mesma empresa não ficou bem colocado em sua pista lá na frente. Dois Jotas A. é demais para uma corrida só. Alguém da Chácara Strapasson abriu repentinamente a porta do utilitário estacionado assustando o carro da frente. Na calçada, uma franguinha usando roupas como em Floripa 35º. As gordinhas adoram esse invernico, desfilando com suas calorias somatizadas no frio recente ocorrido no outonico. Um old-magia dentro de sua BMW queimando combustível fóssil sem prever o futuro próximo da humanidade, ele pode, ele acontece, ele é gente que faz, não importa o quê. Solano avisou o casalzinho de um Celta que a porta de traz estava aberta, o motorista assustou-se, estava bolinando a moça no sinal: Jesus guiava o carro, no próximo culto alguns trocados pagariam a penitência pelo pecado cometido. Solano, que recém comemorara cinquentenário, ia buscar alguém no centro, de carro. Quarta-feira passada, uma mocinha ofereceu-lhe lugar no ônibus: dez anos em uma frase, o tempo não para nem voa, ele assola. Pedestres ainda andam na via, motoristas ainda ocupam calçadas. Os motoqueiros daqui não chutam espelhos, preferem seguir menos errantes. Soraia, a irmã de Solano aguardava a carona enquanto terminava de fumar o primeiro maço do dia, antes do almoço, na justificativa de abrir seu apetite. Ela entrou no carro, ele quase vomitou com o dor da fumaça, impregnada nos cabelos, bela e ineficazmente tingidos de louro. Pense num cinzeiro embaixo de uma almofada ambulante, era ela, a irmã de Solano, que aguardava sem saber, o dia de ser a sua vez no SAMU. As ruas não mais têm cheiro de gasolina, elas têm uma textura reptiliana, cujo atrito desanima sair de casa. Vivêssemos então na beira-mar, onde não existem sapateiros. Aluízio, o pretendente para o qual Soraia se preparou, tentava naquela manhã em sua casa, remover de seu púbis uma feridinha teimosa que adquirira com a vizinha no condomínio onde morava, há meros três meses pensava ele, negando-se a reconhecer que seria oriunda de uma noitada com prostitutas a cinco anos atrás, sem preservativos. Acidentes ou probabilidades? O comportamento das pessoas em trânsito, a saúde de um jovem casal e de outro iminente, mais que adulto, como tudo isso se desenvolve? Está escrito, aonde? Vai se adaptando, como? Tem um tempo certo para se conhecer alguém, quando? O destino paira realmente sobre todos, por quê? Sinal vermelho para as perguntas, que circulam irregularmente pela cidade sem habilitação. É preciso muito mais que habilitação para se conduzir as coisas. Solano, também não sabe o que é..                                                                                                                                                                          


quarta-feira, 23 de agosto de 2017

INSTRU#MENTALIS


 Incantation n. 2 - William Lovelady - by Tatyana Ryzhkova






Les Réminiscences


 A Feia 

A feia. Até que ela tem alguns espelhos em casa, mas prefere apenas um. É aquele em que ela se interpreta como feia. Através dele, percebe defeitos plásticos, desvios estéticos e outras tantas imperfeições proparoxítonas. Linhas irregulares, traçam desde a silhueta externa até os orifícios faciais, compondo também o relevo da pele e dos cabelos, passando pela superfície dos seios e das nádegas, tudo errado segundo ela. Olhar profundo, nariz proeminente, lábios carnudos... outros lábios, salientes, principalmente quando excitada, mamilos idem... um quadril generoso... e uma juba de dar inveja à Lily Monstro. Mas tudo era feio na casa-corpo da Feia. Para compensar tanta falta de autoestima, ela decorava sua casa-casa como uma arquiteta especialista em interiores. Móveis e flores, camas e plantas, cozinha e banheiro, tudo era bonitinho, limpo e cheiroso. O único pó da casa da Feia era o de café. A beleza feia de Dona Feia, se estendia para além da imagem que projetava de si naquele anteparo preferido. Sim, tal feiura atingia seus movimentos e inclusive, sua performance sexual. Ela se achava estabanada, trôpega, escorregadiça. Na horizontal, sentia-se na diagonal, bissetriz, quase uma tangente de tanta não adaptação à gente como a gente. Credo, até suas sensações voltavam-se para o feio. Dizia ela, que provocava sono nos outros, ao invés de ânimo, vontade, desejo, excitação, tesão. Pudera, o pensamento é assim mesmo para toda aquela que se considere feia. Pela estrada afora, ela cantarolava “ninguém me olha, ninguém me quer, ninguém me chama de mulher”. Enfim, ela se achava realista e modesta com os predicados que a natureza lhe deu. Nas entrelinhas, aduzia que é simples como a água: seu perfume é Boticário, tem gosto de chuchu e sua cor é bege. Mas a Feia tem um detalhe que poucos sabem: ela é mentirosa. Diferente de estar enganada, ela é mentirosa sim. Engana-se o cego com o arranha-céu, o surdo com o rap. Mente, muita gente. Mas a maioria das mentiras é no sentido de obtenção de vantagens, defesa de interesses, isenção de responsabilidades. Feia, não. Ela mente pra carvalho, paratodos. Mas ela mente é para ofuscar a verdade, a sua verdade. Alguém com conhecimento da psique humana, saberia explicar com argumento o que se passa com Feia, a mulher mais bonita da cidade. Ou então, alguém com percepção da essência humana, pode poetizar com maestria o que se passa com Feia, a pessoa mais encantadora da Terra. Magia, erotismo, sedução. Feia não é ágil nem veloz na cama; ela busca e encontra ligações mais profundas e duradouras; prazeres sensoriais, olhares, saliva, toques em ritmo de música: uma bossa inicial seguida no compasso do blues com alegria de jazz pra sambar no final; massagens, lhe remetem aos céus sem lenço nem documento; trabalha com os braços, dá chaves de coxas, mexe e remexe o ventre como ninguém jamais se aventurou; percorre e curte que lhe corram a pele com a pressa de um quiromante, que cruzem toda a sua tez feito hábil navegador; altíssima sensibilidade nos pés e mãos, nos seios e no pescoço; adora ser beijada, lambida, chupada e amada até o(s) orgasmo(s), com todo o carinho que possa lhe oferecer e compartilhar um homem, não um macho. Uma fêmea, quem sabe - lembre-se que machismo é diferente de feminismo. E ela quer mais. E quer bis. E tem, e chega e se vai. Feia é assim. Um ser em recusa à sua particular beleza estelar e à própria dimensão disso. Estrábica pelo juízo de si mesma, equivocado, encontra-se incapaz de aceitar a ótica alheia, verdadeira. Sua sensualidade, está também em tudo aquilo que ela não diz. Aquele espelho, não tem vidro, é apenas um quadro sem moldura, onde ela compensa fingindo ser real um mundo contrário. Talvez um dia ela se mude, e não leve o quadro. Talvez um dia ela assuma sua beleza, e não minta mais pra carvalho, nem paratodos. Talvez esta noite ela se livre dos lençóis que a escondem na cama. Talvez hoje ela esteja tão quente, tão linda, que chegue ao ponto de berrar no instante do clímax solitário. Um grito compatível, que alcance as estrelas. Que atinja a magnitude de sua beleza. Ela é tão bonita... ela é tão bonita que na certa, eles a ressuscitarão... Eu não copio: eu aplico. Eu não invento: eu demonstro. Eu não minto: eu traduzo. Eu não vivo: eu apenas não me desfaço... 

minha,
    utopia
em teu ouvido horizonte
em silêncio dizer-te,
    um monte
das verdades que eu sabia..  




sábado, 19 de agosto de 2017

Estação Silêncio


Yo-Yo Ma & Kathryn Stott - "The Swan" (Camille Saint-Saëns)



 é tarde da noite 
 alguém bate lá fora 
 espio pela janela, 
     embaçada pelo simples olhar 
 é o choro, 
     querendo entrar 
 abro a porta da madrugada e sei 
 ele trouxe na mala uma música para nós 
 eu e ninguém escutarmos, 
     a morte do cisne.. 
 ligo o som 
 desligo a luz 
 e um coração de luz invade 
 aquela noite vazia 
 iluminada pela sensibilidade 
 em cada gesto do violoncelo 
 uma lágrima escorrendo 
 daqui da represa vida 
 cada nota, 
     uma partida 
 para a natureza de onde vim... 




sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Contos do Bloco 6 - Parte II




O Bem Dotado do Ahú


Era uma vez, Fabiano, o garanhão da turma. Toda turma tem um garanhão. Mas este não tinha biotipo de Mangalarga Marchador, nem de Puro Sangue Inglês ou Árabe, era um sujeito comum, apenas com uma vestimenta que alucina algumas mulheres: a farda. Terceiro-sargento do Exército, ele entrou no curso de Direito com objetivo inicial, o estudo. Tímido, franzino, moreno e menino. Estilo mineiro, falava baixo e pouco, olhava o suficiente. E assim, o militar foi arrebatando suas “inimigas” ao longo do curso. Suas boas notas aumentaram o seu charme. Como sempre, nada oficial, o povo ficava sabendo semanas depois do abate. Mas ele era educado, não contava nada, saía da boca delas o enlace, e sem conotação sexual alguma. 

O autor do texto, era o ouvidor delas. Talvez este tivesse cara de psicólogo, conselheiro, guru. Mais velho, observava os movimentos da classe com astúcia literária, sem a ambição de ser um Dalton da vida. Trouxe mais essa história, para sua anônima biblioteca. Continuemos. Fabiano deixou a Terezinha do Chico no chinelo, tantas foram as mais do que três, só da turma original que ele fez chegar. A primeira, mais velha do que ele, uma polaca baixinha e raivosa, mãe solteira de piá, encantou-se com os predicados do moço, mas por ser temperamental ele a deixou. A segunda, bem mais nova do que ele, a Raimunda da sala, perdeu o selo de sua retaguarda, e os dois ficaram bom tempo juntos. 

Uma noite, num intervalo das aulas, Fabiano chegou para o autor e lhe abriu o jogo: sua “namorada” (Rai), ele e mais uma outra colega iriam para um motel passar a noite, convidando-o para a hecatombe universitária, uma espécie de “sêmen-nário”. A tal colega, Big-Ass, era casada, mãe de três filhos, dois já grandes. Beirava a obesidade, lhe faltando um primeiro pré-molar superior esquerdo. Em função do contexto, é claro que o autor negou tal aventura, dando uma desculpa qualquer, mesmo com o prejuízo de ter sido, a posteriori, considerado homossexual por elas. Às vezes, a prevenção vale mais do que a reputação. Dali em diante, a reforçada aluna parou de cumprimentá-lo. Pudera, é um tipo de rejeição incomum na selva hodierna, geralmente os caras topam tudo. Não houve surpresa, mas a primeira vez em que a gente é convidado para um swing, ninguém esquece. Pensava o autor, que swing era algo súbito, combinado na hora, um ímpeto por causa de um impulso sexual coletivo entre um grupinho de momento. Que nada, tem agenda para isso também. 

Inocência, uma terceira colega, bem mais nova que o autor, começou a relacionar-se com este, sem malícia alguma, não obstante ela tenha começado a gostar dele. Fiona, a feiosa da turma, ser demoníaco que ninguém olhava principalmente pela sua deseducação, não gostava do que via e foi até a mocinha proibindo-a de andar com homem casado: pegou ela para si mesma, fazendo-a de passiva, a coitada teve de se entregar aos carinhos inclusive sexuais daquela machorra. Tão coitadinha, que tentou namorar com Fabiano, mas Fiona não deixou. Depois de alguns outros contatos, uns mais íntimos e outros nem tanto, Fabiano engatou firme relacionamento com Carla, a poetisa da classe. 

Poetisas não são corpos descartáveis, aventuras, riscos, passatempos, brincadeiras ou algo efêmero desse (baixo) nível. Poetisas, são companhia para a vida toda. Demorou, mas Fabiano aprendeu a lição ao final da faculdade. Carla está grávida. Raivosa foi morar no Pantanal. Raimunda continua um ser apenas sexuado. Big-Ass hoje leciona aulas práticas de primeira vez para meninos de um colégio de bairro. Fiona ficou viúva e se mata todo dia à base de Rivotril. Inocência morreu de overdose numa rave. O autor... o autor? Hahahaha, o autor... coitado... a poetisa que ele conheceu, teve medo de lhe amar...  




quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Poesias Atropeladas em Ponto de Ônibus



[Ele não queria chamar a atenção. É que a poesia, é a forma mais discreta, elegante e desapegada de se olhar alguém. Fosse indiscreta, seria anúncio e não poesia. Fosse deseducada, seria ofensa e não poesia. Fosse apego, seria convite e não poesia. O não costume, afasta eventuais perfumes...]

[Tomei chuvarada. Depois, não tomei banho quente. Demente, e hoje doente, pois me esqueci dos ensinamentos da vovozinha...]

[A fotografia. Meu veículo de fuga para onde eu queria. Ir sem companhia alguma. Isento de paixão. Desviando dos opacos da bruma, até ver uma cor imaginária. Que eu possa senti-la, tão ordinária quanto a solidão, estampada no deserto dos meus álbuns reais...]

[Seus sonhos, são só seus. Nos meus sonhos, há muito de ti. Como em teus seios, corpo nu onde escrevo. Deito a palavra-língua, metáfora minha que lhe preenche todinha, de tinta-saliva, por todo teu proibido. Nossa libido horizontal, à beira-mar do meu amor. De onde vem a onda. Teu gozo. Meu prazer, morto a cada despertar..]

[Quero uma terra, que seja de areia, com muita água à mercê, com canoas em lugar dos automóveis, árvores e cabanas, pés de banana, cocos e outros frutos dali, longe daqui, deste planalto banhado sem horizontes.]

[Não há nada de novo nos papéis do poeta. É apenas um jeito diferente, de ver a velha vida das coisas..]



A Falta em Particípio











A solidão de quem não ama, é diferente da solidão de quem é amado. Uma pessoa pode não amar alguém, mas se for amada por outros, vive diferentemente. Digamos que sua solidão não tem tio na sílaba tônica. Ou podemos remover a letra “o”, para tentar demonstrar tal diferença, de intensidade, por exemplo. Quando se é amado, seja por amigos, parentes e colegas, há suporte, apoio e outros sinônimos. Há gente, calor, diálogos. Pode-se conjugar tantos verbos como sair, passear, viajar, telefonar e etc. Esta solidãozinha, exercita através de vários movimentos a língua nacional, é uma cidadania prática. Enfim, é uma quase não solidão; por ser uma escolha de um caminho individual no meio de outros, um banco no trem onde viaja mais gente, uma bicicleta andando no parque, onde só vai um, só passa um, só cabe um dentre tantos ao redor. Aquela, a outra solidão, a total, é o oposto. Tanto, que deveria reivindicar para si, a exclusividade do substantivo. Não há movimentos, palavras, gestos, encontros, contatos. Ela é tão forte e presente, que não precisa de suporte ou apoio, ela existe 'antonimamente' às inter-relações pessoais de amizade, parentesco e coleguismo. Uma língua tão rica, empregando a mesma palavra para semânticas tão distintas. Nesse furto erudito, o colóquio é menor de idade, incapaz. Eu queria poder juntar essa multidão de gentes, os solitários com satélites, e explicar para eles o que é a verdadeira solidão. Não a título de ensino ou maestria, mas só para informação, até quem sabe um reconhecimento da parte deles. Pois aprendi a tomar café sem leite. Comer pastel em pé na Brasileira. Almoçar sozinho aos domingos. Cruzar hipermercados, lojas de departamentos, estádio de futebol, parques, ciclovias, calçadas, ruas e avenidas, tudo isso sem ninguém ao lado. Passear com o cachorro sem alarde. Andar de óculos escuros sem sol, caminhar longe sem relógio, dirigir defensivamente sem brecar, tudo isso sem baixar a cabeça. Vestir pouca roupa no frio, desafiar tempestades sem guarda-chuvas, fotografar o que me dá vontade aonde for, tudo isso com discrição. Sentir num livro, uma companhia quase humana. Sei tocar instrumento médio e cantar baixinho, enganar insônias, dormir bem no inverno, despertar indiferente em todas as estações. Cozinhar para um como se fossem dois. Reservado, choramingar de alegria ou sensibilidade diante das coisas importantes da vida. Aprendi que escrever é a minha forma de felicidade. E, principalmente, sonhar comigo mesmo, apenas eu. Eu, imaginando que esse mesmo mundo, fosse outro. Eu, que agora repeti o que disse uma vez. Não tem problema: ninguém ouviu... 



segunda-feira, 14 de agosto de 2017

A Loucura no Divã


Se eu não fosse louco,
Não aguentaria
Eu me mataria,
A duas quadras da Praça dos Enforcados.


Calçadão
Palco da insanidade
Cidade e loucura
Acontecem em sintonia fina
Desfilando sobrevivências
Sem plateia que as analisasse...


O amor
É a forma mais ingênua da loucura
Pois só se crê em um mundo
Os outros mundos,
São de ficção
A mesma que anula daquele amante,
A sua pérfida razão..


A polaca tinha pelos no ventre
Vergonha da sua rosa
Tão rósea quanto a flor
Vermelha quando quente
Despetalada pela língua da gente
Insano de sede
Do gozo dormente...


Faço planos impossíveis
Mas traço rotas perfeitas
É assim que bem se leva
Um descaminho para algum começo...


Minha crise,
É o silêncio
Quando eu berro para dentro
Essa voz que me afoga
Parecendo ecoar
Em algum lugar do pensamento
Aonde os nervos não chegam
Não há sangue
Só tem maré...


Sou neutro
E idiota
Por isso,
Também sou o que não sou..


Queria uma cidade antes
Que nunca tivesse virado cidade
Será sempre mocidade...


Sou feliz,
    agora..
Vá embora,
Não queira saber o pouco me deixa assim.




Contos do Tempo















O Passado em Gerúndio 

Quando foi o meu ontem. Pergunta sem interrogação, não fazem jus as coisas certas, determinadas, pouco inexatas. Traço no tempo, com a régua presente, feita de madeira-de-lei ateia. Uma ponta porosa na outra mão e lá vou eu, riscar no papel, uma data divisória para o passado. Seria a partir de um fato, ou de suas consequências, não sei. Como isolar tanta coisa que já aconteceu e principalmente aquilo que se perdeu naquela época. Mas não ocorre mais, então é preciso separar, melhor ainda extinguir. Passado é contêiner plural de carga, cabe muito além de nossa capacidade cumulativa, mesmo quando involuntária. Mas... e a linha, onde está. Ponto inicial, traçados e desenhos tentados, soluções de continuidade interrompem o fim. E o recomeçam. Recomeçar um fim... que coisa mais mirabolante. É dificílimo, marcar a folha em branco. No fundo, é apenas simbólico, eu sei. Porque todos ainda guardamos sem naftalina algo que já se foi. E principalmente, fazemos isso com algo que (ainda) não veio. O gosto, o beijo, o calor. Tudo o que teve ou não oportunidade para chegar, mas não deu certo, perdeu sua chance. Época, é uma fatia do tempo em que as chances podem acontecer. Depois disso, seria estranho, démodé. Por isso, recomenda-se que não tenhamos muitos armários, despensas, garagens, baús. Menos ainda, papéis que absorvam feito mata-borrão, tintas extintas. Uns, oferecem enes grandezas de indiferença a esse tipo de coisa. A não sensação, gera o mais bobo dos mistérios, que é o bem-estar depois do primeiro ato. Mas a indiferença, dona do teatro, fecha a cortina do silêncio. É a forma simples e fugidia de isolar a possibilidade. É a forma clássica e erudita de espantar o medo de amar.. 

     oração ao tempo / caetano / bethânia 




Photo RESENHA





sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Crônica Cotidiana 50




Condomínio Serra do Mar. Bairro do Riacho Doce. Quantos nomes lindos podem batizar um inferno. Ou identificar pessoas diabólicas no registro geral. Isso tudo que propaga o mal pela terra, não havendo lugar distante, o troço é aqui mesmo, em rancho raso e no começo do mundo. As tais projeções religiosas, em moradas imaginárias, sucumbem à realidade pagã. A diferença para os boulevards e os maisons, é apenas estética. A mãe foi arrastada para fora do apartamento, o filho ficou com medo de sair na sala para ver o que estava acontecendo; quando viu, ela já se encontrava a sete palmos no terreno baldio ao lado do condomínio, com um braço para fora da cova encomendada. Ou não, a cova poderia servir para qualquer outro: deu no rádio. Hoje, no princípio do dia, o anúncio do fim de outra vida, a trigésima no ano, naquelas cercanias. A violência urbana não tem retratos, ela é a própria moldura que contorna a cidade e sua região metropolitana. Se mais de um já é sociedade, com três já pode deixar de ser civilmente organizada. Há uma certeza nova aquém do horizonte das montanhas subtropicais: a morte, agora é antecipada. Tanto que a vida tornou-se caso de sobrevivência e resistência, teimosia e paciência. Quase tudo que rima com violência. Esta, há tempos é o motor à combustão dos cotidianos desenfreados, não importando aonde vão. A notícia a estimula, o Estado a fomenta e papai do céu já se divorciou e foi-se embora dali. Inversão de valores, banalização de relações, seres acuados por irracionais opressores. Essa mania freudiana de se transferir responsabilidades ainda vai permitir à floresta, recuperar sua parte invadida pelos humanos, todinha, sem ficção qualquer. Um gesto, um grito. Um comportamento, uma omissão (como o caso de Jotapê, o filho da mãe). Tudo são formas de praticar a violência. O pé da serra está diabético, no sentido figurado, sobretudo ‘melitense’. Milhares de pessoas sem direitos se aglomeram naquele pardieiro errante, invasão vertical. Mas não têm, porque que foram roubados os seus direitos. Transformados em vantagens e regalias, para não falar absurdos ou abusos, carregando ainda o eufemismo de auxílios ou adicionais, gratificações extras ofertadas àqueles que deviam ter um mínimo de consciência do que deve ser a coisa pública. Feito Inarritú, dona Márcia devia cerca de cinco mil reais à uma das três facções que dominava o tráfico na região. Mas...qual região? Cocaína é coisa cara! Os consumidores moram naqueles outros condomínios, os boulevards e os maisons. Ela foi assassinada porque Big Jo, o filho da desembargadora, não pagou os muitos gramas que dela adquirira e consumira em sua festinha de aniversário no início do ano. Enquanto João Pedro distribui camadas entre os seus, João Paulo recusou-se a salvar a mãe dos credores. Tudo isso acontecendo normalmente ao pé da serra, já que o normal não precisa mais ser correto ou não. A lei dos homens e o código paralelo da sobrevivência incidem apenas sobre dona Márcia e João Paulo (Jotapê). Dra Gláucia e João Pedro (Big Jo), estão imunes a qualquer regramento. Traficante é uma palavra feia, precisa ser encarcerado. Usuário, é outro nome lindo que batiza... talvez fosse bom interná-lo...