quinta-feira, 27 de novembro de 2014

CONTOS ao léu dos destinos



 TAÇAS VAZIAS 

Passou a vida escrevendo sobre elas, o poeta das mulheres. E não teve nenhuma, que o amasse em plenitude, pela inconformidade delas quanto ao prazer dele. Porque na lei dos homens, não se pode distribuir carinho em forma de flores, músicas, gestos, companhia, diálogos ou palavras. A emoção tornou-se refém de um só destinatário, por causa das coisas da monogamia ocidental, invertendo a importância do afeto para um valor possessório. Além do que, esse carinho pseudo-ofertado, chegava como interesse, declaração, desejo, compromisso, justamente porque não era oferecido. Algo tão delicado, parecia feito cristais sendo transportados em caixas de isopor nos asfaltos irregulares das tortuosas estradas da América do Sul. No fim, já não eram mais cristais, apenas cacos de vidro comum que não mais reluziam, sem um mínimo formato, então ignorantes de sol, aguardando a decomposição das horas sobre o lugar. Para ele, o que importava era que nasciam cristais. Assim como a vida dos humanos, todos surgem puros e límpidos, seja no ventre ou nos caminhos, sendo com o tempo e pela ação ou omissão própria ou de muitos, transformados e reduzidos em sucata, banalidades, desamores. Pássaros novos lançados ao céu, felinos ternos à selva, tartaruguinhas ao mar...tentativas de sobrevida regidas pelo crivo da seleção natural. Por ser de caráter de natureza, a conformidade dele instalou-se no meio. Não houve tristeza, mágoa nem rancor. Apenas uma dor muda, crônica, de relampejos intermitentes pedindo mais poesia. A cada nova fêmea que cruzasse em sua vida, mas só aquela que despertasse nele uma coisa um tanto irrelevante para a maioria nos dias de hoje: a vontade de lhe fazer cafuné. E o segredo era o motivo que o levava a este desejo: a possibilidade de se estar frente a um verdadeiro universo. Um plano dimensional onde tinha tudo o que ele gostava. O cafuné, como veículo de transporte e desbravamento deste plano. Uma mulher. Como um oceano desconhecido, com ilhas paradisíacas, paisagens deslumbrantes, praias desertas, frutas deliciosas, água nascente. Depois do conhecimento, se fosse o caso mas jamais obrigatoriamente em razão do curso natural do destino, a construção e a possibilidade de viver um grande amor, a tese. Mas na antítese da vida, foram raríssimas a que ele quase encontrou assim. Quase, porque não encontrou. Para ser encontrado, ela teria de amá-lo na mesma proporção, não aconteceu. Por isso a sina chegou ao fim, por ter se conscientizado de que tudo deveria ter sido mesmo assim. Sem o mútuo encontro. Mas quando reconheceu, partiram cristais pelo vento. Não havia estradas. Só havia o vento...   


quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Marília no Divã




- Pois bem. Diga-me o que é que há. 
- Solidão, dr. Eu já não aguento mais, é muito tempo de solidão. 
- Mas que tipo de solidão você vive? 
- Ué, tem essa coisa de tipos de solidão? 
- Sim, existem quatro variantes de solidão. 
- Quais são? Eu nem imaginava isso... 
- A primeira, é a solidão que se sente por ausência de um determinado alguém. A segunda, é a solidão que se sente pela falta de qualquer um. A terceira, é a solidão que se sente pela distância de você mesma. E a última, é a solidão que se sente pela sua estranheza em relação à coletividade. Qual é a sua? 
- Hum...sei não. É um pouco da primeira, tenho saudade de um tempo com uma pessoa especial. Mas às vezes é também a segunda, pelos momentos que passo sozinha, sem conversar com ninguém. Cabe ainda a terceira, porque nestes momentos eu choro muito, pois não consigo me encontrar. Mas a última...pode ser , é difícil achar quem me compreenda e principalmente porque vejo tanta gente junto feliz por aí, só eu que não... 
- Se você tem mais de uma dessas, é porque não é solidão. Mesmo que seja apenas um pouco de cada uma, ou de mais de uma. Isso porque uma anula a outra, o ser humano é muito pequeno para ter mais de uma solidão, não cabe. Veja sim, quanta gente cabe em você: aquela pessoa especial, todos os outros conhecidos que não estão por perto, todos os casais que você vê juntos... 
- Mas o dr pulou a terceira solidão. 
- Sim, pois nos outros tipos, prova-se que você tem bastante gente em sua vida, podia não haver ninguém. 
- E no terceiro? 
- Você pode estar distante de si mesma. Mas poderia ser pior: você não ter como se buscar aí dentro. Não ter para onde ir... 
- Então o sr quer dizer que eu não sofro de solidão? 
- Sim. A solidão não traz sofrimento. O que faz sofrer, é apenas a imaginação. É uma questão de redirecionar o pensamento. Pense nisso. 
- Mas se eu pensar, imaginar, então eu acabo sofrendo. 
- Basta que você pare de pensar. Saia para a vida, vá lá fora. Tome sol, chuva, ônibus, carona, café. Tome água, chás, sucos, vitaminas. Tome invertidas, poeira, esbarrões, na cara, vergonha. Tome ar! Mas tome alguma coisa. Algo que não venha de você, que parta lá de fora, de qualquer lugar. 
- Mas e o meu mundo interno, onde fica, o que fazer dele? 
- Seu mundo interno será mundo só quando você dividi-lo. Não necessariamente com outra pessoa, mas sim no espaço: viva o seu mundo interno, também fora de sua casa. Você não tem problemas com o tempo, é apenas uma questão de espaço. 
- E se a solidão for junto comigo lá para fora? 
- Apresente-a a alguém. 
- Para quê? 
- Para que ela morra um pouco a cada olhar. A cada voz, sabor, cheiro, tato. A cada passeio, cinema, bar, teatro, dança. Aniversário, festa, parque, exposição, jogo. Rio, praia, campo, livro, música. Baile, circo, feira, lanche, gole. Nuvem, paisagem, árvore, cor, flor. Pássaro, cão, zoo, inseto, gente. Arrepio, cócega, suspiro, dor, tesão. Salão, loja, academia, suor, sexo. Há incontáveis grupos de cinco sentidos por aí. Não importando se você esteja acompanhada ou não. Quando vir, de tanto viver, ela já não mais estará ao seu redor. 
- Isso é mágica? 
- Não, é a penas a sua missão. 
- Qual? 
- Viver a sua beleza. Mais nada. Se beleza fosse estoque, não haveria prateleiras nos supermercados... 
- Mas eu pensei que a minha beleza fosse um tesouro. Então eu queria dá-la para alguém guardar. 
- Aí deixará de ser tesouro, para ser mero objeto. De nada adianta alguém ser belo, maravilhoso, solar, se restar inerte e noturno atrás da alguma montanha. 
- Tem razão. O que devo fazer então? 
- Comece a amanhecer... 


segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Eu, por mim mesmo



A ROSA DOS MEUS VENTOS 
Há muito que reconheço, minha não naturalidade em relação ao óbvio, ao comum, ao costumeiro. Todos são diferentes, é sabido, mas eu beiro a excentricidade das existências. Não faço questão de ser assim, é apenas o meu jeito de viver, de amar ou não as coisas, de (não) me relacionar com as pessoas. Tenho uma visão ímpar do mundo, um mundo doutrinado a ser par. Pelo dogma de ter polos, rito de ser simples, simbologia de ter que amar alguém. Um mundo ocidental demais para meu norte visionário, para o meu sul de profundidades, reflexões e comportamentos. Sou um anarquista social das relações humanas, só pelo fato de buscar nelas a essência dos seres, longe da superficialidade dos cotidianos banais, de suas etiquetas e dos bons modos, das cartilhas da normalidade. De tão distinto cavalheiro, minha catarse é a escrita. Por isso eu não gosto de me ater aos textos, desejo encontrar sua inspiração. É porque eu não quero apenas ver as flores, desejo sentir o seu perfume. Eu não admito somente ouvir notícias, tenho que contextualizá-las. Não me sacio em beijar bocas, quero sorver salivas. Não me satisfaço em tatear corpos, objetivo trazer à tona seus carinhos, alegrias, cócegas, calores e orgasmos. Tudo isso e muito mais do meu universo, afasta estelarmente outros mundos deste mesmo cosmo. Sempre foi assim, e há aprendizado meu consolidado nesse sentido. Meus valores nem são tão desiguais dos outros, mas meus interesses em cultivá-los sim. Minha luta pela sua prevalência, meu respeito pela sua manutenção, meu cuidado em praticá-los. Digo por aí que é a minha verdade, aquilo que eu deveria chamar de meu jeito. Em razão disso, sou interpretado como felino, como albino, como menino. Há um choque quase anafilático em cada nova relação, matando o elo e sobrevivendo as partes, espacialmente divergentes. A falta de empatia é soberana, em terra de crise de identidades conflitantes. Eu só queria que as amizades florescessem, sem as sombras das palavras tímidas, sem a aridez dos gestos envergonhados, sem a frieza das omissões, dos silêncios e da não reciprocidade. Eu só queria música, conversa e cafuné. Mas as pessoas concluem dança, sentimento e compromisso. Então me chamam de ansioso, complicado, ininteligível, pela conexão que não conseguem estabelecer entre minhas palavras e meus atos com a interpretação que elas fazem da vida em geral, como se eu tivesse culpa de não ser e estar feito a maioria, quando diante de algo importante, como um momento ou um lugar. Um urso branco na floresta, um pinguim no equador, tubarão do asfalto, pássaro em cavernas, quaisquer analogias cabem para demonstrar minha ectópica sobrevivência. Levo não comigo os estigmas do exagero e do radicalismo, que sempre terminam em silêncio e desprezo. Eu só pensava em sorrir, em reação à beleza. Só porque eu queria investigar a causa humana, não apenas restar nas consequências da espécie. Coisa toda que não me abala, apesar da indignação. Que não me cala apesar da desesperança e que não me cega apesar do nada. Parei de ter fé no amor, por ter aprendido que não combino com ninguém, e vice-versa, (cons)ciência. Quanto mais descrente fico nas coisas da sociedade, mais eu creio na minha poesia, ao som de minha música, vivenciados no cantinho do meu ser, onde mora minha emoção. E é justamente esta sensibilidade estrangeira que me torna um apátrida social, no meio ambiente em que todos sobrevivemos. Não me preocupa a solidão, nem me entristece a ausência de uma companheira. Porque não são estas coisas que me fazem acreditar nos dias melhores. Continuarei sem ser compreendido, sem ter chances de me explicar, sem ser ouvido, querido ou amado pelos cruzadores do meu caminho. E não sinto vergonha em repetir a mesma música, nem de ler mais vezes o mesmo livro, se eles me são fundamentais. A minha felicidade está bem longe da concepção alheia do quorum tradicional de felicidades: ela simplesmente se encontra no exercício desta minha essência. Tenho duas filhas. Tenho dois cães, três projetos, quatro hobbies, cinco amigos, seis sentidos, ene colegas, nenhum amor e um só destino: o mar. Nessa imensidão de navegar assim, essa é a rota que escolhi para mim. Não emprestei de ninguém alguma outra forma de ver a vida: dou-lhe cores e direções que concebo, porque é mesmo minha, a rosa dos meus ventos... 



 "SÓ" 
 - OSWALDO MONTENEGRO - 




CONTOS sob o vento lunar / +


 NOVA SOLIDÃO 



Não consigo compreendê-la, mas tentarei. Essa quase gente que me acompanha, um semiespírito que me guarda, sem matéria nem alma, é muito mais do que alguém cantando por perto. Som que chega nas horas mais difíceis, quando o organismo inteiro volta cem por cento da minha sensibilidade para a audição de algo que confortasse, ela vem. E se é sempre assim, por que motivo eu a chamaria de nova? Se estou mais velho, eu a mereceria? Ou será que ela já amadureceu muito antes de mim? Não, não é uma questão temporal. Minha solidão não possui registro geral, cadastro na humanidade, é um ser inanimado que pulula o redor dos solitários cidadãos, referencial particular de espaço. Mas há aqueles que não a reconhecem, recusam até mesmo em perceber tal individualidade paralela. Eu não, tenho a ela como fraterna. É bem vinda, dou-lhe abrigo, repouso, principalmente à noite quando ela surge no meu escuro total. Parece cansada, alcanço-lhe cobertas e dois travesseiros fofos com fronhas cheirosas em cama grande e macia. Cerro os olhos e a admiro, começando a entendê-la. É mesmo, ela esteve por todo o dia ao meu lado, eu não sabia. Desde o despertar, ela me segue por onde vou, me fala como penso, me ouve quando sinto. Ela está presente nos meus sentidos, na percepção do mundo, da vida, das gentes, das coisas, dos fatos e do impossível. Orienta meus sonhos, contraindica remédios, alimentos, condutas, pessoas e amores. Aponta caminhos e comportamentos. Explica-me baixinho as razões de tudo, evidencia mistérios, sugere respostas para que eu as encontre. Penso que ela tem parentesco com minha consciência, nível de primeiro grau. Mas ela não é a minha própria consciência. Porque esta, às vezes brada sem voz, bate sem tato, chora sem cor. Minha consciência me reconduz ao meu interior, a solidão me reintegra ao mundo. Paradoxo, contrassenso, não me interessa, ela é meu suporte diário renovado em período noturno para a próxima manhã. E quando houver um novo amanhã, a solidão será igualmente nova. Vou até a cômoda das analogias, e empresto que ela assemelha-se com o amor: a cada dia novo, nova sensação. Então me perguntariam sobre o absurdo, pois quem não ama, como poderia conceber tal nova sensação? Responderia eu, que há dois tipos de pessoas que não amam: aqueles que precisam amar alguém, e os que desfrutam (d)a paz. Os primeiros, veem a solidão como ausência. Os outros, a sentem como presença. Jamais estarei só, querida solidão. Enquanto houver você em meu mundo, todo pensamento será apenas um conhecido, todo sentimento restará colega, e todo amor não passará de visita. Pessoas que se vão à mesma dose em que vieram. Deixarão memória na mesma proporção daquilo que de mim levaram. Nunca permanecerão por aqui. Aqui onde não há ciúme. Aqui onde não tem afeto. Onde lágrimas viram estrelas, prantos formam constelações e sorrisos transformam-se em luar. Não sofro mais a força bruta da companhia do primeiro sol, bastando não reconhecê-lo, corajosamente. Ele arde, queima, resseca vidas como faz a paixão, como tem feito o amor. Meu pensamento não é charque, nem meu coração norueguês. Estou integrado à minha própria natureza, livre para fazer da luz um livro fechado na estante, com estórias de amores, sóis e outras invenções. Toda ficção será bem guardada, na medida de sua importância, hierarquicamente disposta na altura das prateleiras de minha história. Por isso, minha situação relacional é vazia de alguém, mas repleta de solidão. Quem me olhar sozinho na rua, nem imagina o quanto eu sou feliz. Só porque eu não preciso amar alguém. Porque eu não preciso ser amado por ninguém, para que eu seja verdade. Assim, não há tensão, posse, espera, cobrança, gozo nem tormento: a emoção é de outro plano vibratório. Em cada novo amanhecer, mais descobertas de onde, como, quando e por que ela tem me conduzido. Errei e aprendi, desenvolvi e emancipei. Abandonei as teses da reciprocidade, hoje são folhas avulsas soltas dentro daquele livro no alto. Meu peito agora é de diamante, nada pode riscar. E aquele brilho que dele reluz, é nada mais do que o reflexo do olhar de minha solidão, anteparo da lua. Mas agora eu a lavrei em meu significante notarial, inspirado no que ela sempre fez para o meu futuro: ela passou a se chamar “Lumiar”... 



 'Song For Guy' - Elton John  
 cover by him 


phOTOCALIGRAfIA







sábado, 22 de novembro de 2014

CONTOS do semi-árido fronteiriço


 ALELUIA, GRETCHEN 



Então, ela resolveu ir embora. Não entrou, nem viu direito, mas já concluiu sobre a terra desconhecida. Dessas decisões tão instantâneas quanto os produtos alimentares para quem é destituído de metodologia, disciplina. Ela que desfilava palavras, histórias, ensinamentos, que passaram feito independência na deserta avenida de minha companhia. Ainda bem que eu não estava no palanque. Jamais construí um, ficaria tão alto que despencar de lá seria fatal. Pessoas arrebentam-se no próprio chão, coladas ao solo dos problemas em seus caminhos não outorgados, mas com ingerências mil, as quais partem daqueles que têm precisão futurística, profetizando o que é bom ou mau para quem quer que seja, feito videntes em caravana para Altamira. Distante num sentido e próximo noutro, posso analisar com frieza mais gélida do que a utilizada por ela em nossos poucos dias de descobrimento abortado, ateia catequese morta sem bandeiras. Meu aprendizado é mesmo de causar orgulho, diante da cautela preventiva que mantenho nas mais diversas situações cotidianas, de um telefonema a uma visita, de um contrato a uma exposição, de uma música a um livro, de um olhar a um abraço, de um coleguismo a uma amizade até suspender-se tudo nesta, é o meu limite. Sentimentos afetivos, são coisas tão nobres que deveriam permanecer incólumes como as pérolas das ostras, os tesouros naufragados, diamantes brutos na natureza, flora e fauna também. Mas pessoas comportam-se tão defesas hoje em dia, que perguntar sobre elas para elas mesmas, parece ofensivo, imoral, danoso. É a tal invasão de privacidade tomando conta de uma simples vontade de conhecer alguém, saber como é a pessoa, quais as cores do seu presente mundo particular, seus gostos, paladares, cheiros, músicas, autores, artistas, vontades, futuros, sem qualquer referência a passados, tenho aversão à reminiscências. Ser verdadeiro incomoda, machuca, afasta, sentencia que eu sei. Melhor ser fútil, distanciado, ignorante. Seco, mal-educado, inerte. Mentiroso e frio, excessivamente frio...tem gente que gosta disso. Penso que há uma grande confusão atual nas relações humanas, em função de tanta virtualidade dominante. Ninguém conversa profundidades nas redes, e isso parece ter virado norma migrada para os encontros pessoais. Todos boiando sobre as águas da chuva ácida das metrópoles, no maravilhoso mundo submarino de Netuno, icebergs de concreto, ferro e aço abatem verdadeiros Poseidons, mal conduzidos pelos seus capitães de cimento. Abra sua janela, que sua casa nem precisará ser visitada, não será revelada, mas verá sua planta desenhada no juízo dos precipitados. Regina recolheu-se, silenciou e partiu sem despedidas, a forma mais omissa de dizer adeus. Soube por um terceiro, que “ela queria ficar sozinha”, como se eu tivesse proposto ou sugerido alguma coisa em comunhão, os tais "compromissos sociais" que os codificadores plantonistas das aproximações entre os pares adoram rotular. Novamente, outra amizade expelida prematuramente do ventre e minha voz é emudecida. Não sofro por isso, apenas algumas gotas de indignação caem do meu beiral em forma de letras sobre meus dedos, mas penso que a humanidade sim. E entristece a cada elo que se desfaz em sua natureza. Minhas certezas brotam mais uma vez em meu jardim de raciocínios, praticamente lotado, pois ausente é de espaços para a fé naquilo que não viria mesmo, eu não me afasto dos sinais. Sem qualquer ressentimento, que os bons ventos a acompanhem aonde quer chegar: 'ein prosit'. E que neste caminho não mais acusem erros relacionais, apontando com exatidão alguém que caiba nos moldes e padrões pré-estabelecidos em sua ideia ou na cartilha de seu guia social. Vou mesmo é para o litoral, porque as balas do faroeste caiçara - e se houverem - não ricocheteiam no mar. Lá, eu perguntaria a um guru praiano, qual a razão de mulheres tão bonitas estarem sozinhas ultimamente. Talvez ele me respondesse que a beleza também é um paradigma e, como tal, necessita ser transposto; então elas não sabem lidar direito com suas riquezas, no sentido dinâmico do porvir. Mas, para onde vamos, eu não quero saber. A antecipação da vida, bem como o seu controle medicamentoso, trocando de lugar na sequencia da frase, são antônimos do lema da bandeira nacional: a escassez de boa civilidade, dá o tom sépia àquilo que eu queria chamar de espetáculo e tanto poder desfraldar... 


sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Congresso das Poesias Vivas - "A Beleza" segundo eles


"De todas as belezas que por mim passaram 
 Fui espectador sem esperança 
 Mas sempre grato pelos poderes alquímicos dos meus sentidos.." 
 - Marin Chêne 

"Um lá fundamental é referencial para a música 
 Assim como é o papel para a poesia, 
 O sinal para o convívio, 
 E o usufruto para a beleza.." 
 - Henry Dernier 

"Ó beleza! Onde está tua verdade?" 

"Quem tentar possuir uma flor, verá sua beleza murchando. Mas quem apenas olhar uma flor num campo,  permanecerá para sempre com ela. Você nunca será minha e por isso terei você para sempre." 

"Uma mulher bonita não é aquela de quem se elogiam as pernas ou os braços, mas aquela cuja inteira aparência é  de tal beleza que não deixa possibilidades para admirar as partes isoladas." 
 - Sêneca 

"Ser bonita não interessa. Seja interessante!" 

"As mulheres podem tornar-se facilmente amigas de um homem; mas, para manter essa amizade, torna-se  indispensável o concurso de uma pequena antipatia física." 

"O estudo em geral, a busca da verdade e da beleza são domínios em que nos é consentido ficar crianças toda a  vida." 

"Quem possui a faculdade de ver a beleza, não envelhece." 

"A beleza das coisas existe no espírito de quem as contempla." 
 - David Hume 

"A mais nobre paixão humana é aquela que ama a imagem da beleza em vez da realidade material. O maior prazer  está na contemplação." 

"A beleza que seduz poucas vezes coincide com a beleza que faz apaixonar." 

"Defino a poesia das palavras como Criação rítmica da Beleza. O seu único juiz é o Gosto." 

"Belo, é tudo quanto agrada desinteressadamente." 
 - Immanuel Kant 

"Não há beleza perfeita que não contenha algo de estranho nas suas proporções." 

"Traduzo assim S. Tomás de Aquino: há três coisas necessárias à beleza: integridade, harmonia e luminosidade.  Correspondem essas coisas às fases da apreensão?" 

"Subnutrido de beleza, meu cachorro-poema vai farejando poesia em tudo, pois nunca se sabe quanto tesouro andará  desperdiçado por aí... Quanto filhotinho de estrela atirado no lixo!" 

"Se fosse ensinar a uma criança a beleza da música não começaria com partituras, notas e pautas. Ouviríamos juntos  as melodias mais gostosas e lhe contaria sobre os instrumentos que fazem a música. Aí, encantada com a beleza da  música, ela mesma me pediria que lhe ensinasse o mistério daquelas bolinhas pretas escritas sobre cinco linhas.  Porque as bolinhas pretas e as cinco linhas são apenas ferramentas para a produção da beleza musical. A  experiência da beleza tem de vir antes." 

"A solidão mostra o original, a beleza ousada e surpreendente, a poesia. Mas a solidão também mostra o avesso, o  desproporcionado, o absurdo e o ilícito." 

"Se não houver frutos, valeu a beleza das flores; se não houver flores, valeu a sombra das folhas; se não houver  folhas, valeu a intenção da semente." 
 - Henfil 

"A verdadeira beleza é tão particular, tão nova, que não se reconhece como beleza." 

"De perto 
 Bem de perto 
 Todas as pessoas são belas 
 Pois ali, tão próximos 
 Abandonamos nosso habitual campo de visão 
 Para enxergarmos até de olhos fechados.. 
 Então a beleza desloca-se do plano sagital 
 Para integrar-se à união entre os seres, seu berço 
 Assim, extrapolam-se as fronteiras da beleza aparente 
 Confirmando seus limites, mais ainda 
 Que é necessário algo muito além dela 
 Para afastar a cegueira plástica das distâncias 
 E finalmente poder, 
 Regozijar essa nobre arte chamada viver, 
 Através deste sublime instrumento chamado amor..." 
 - Eduardo Carval 



quinta-feira, 20 de novembro de 2014

CONTOS sob a copa dos abajures


 O CÉU DOS CORPOS 


Um jantar. Fim de semana, amigos em festa, poucos. Ele quase não jantara, tamanha sua atenção nela, quase um estudioso científico do universo feminino aflorando sobre a mesa farta. Depois do propósito, o sofá. Os outros saíram, ocupados com outras coisas, permaneceram apenas ele e ela, lado a lado. Ela, uma mulher, digna de companhia, aquilo que ele havia desistido de crer. Assumira sua porção isolada do mundo, agora no país dos afetos. Mas aquela moça tinha algo estranho. Todos nós temos coisas estranhas, ou especiais, ou mistérios, ou não temos nada disso, pode ser somente tolices. Houve dificuldade da parte dele em reconhecer o que era, em razão daquela sua opção oriental de (não) sentir. Uma barreira sentimental, um bloqueio emocional, muro alto fortemente erguido por sua sapiência, afastando possibilidades, chances, ocasiões e quaisquer similares. Por isso, a tranquilidade, ausência de vontades, cuidados, interesses, que tornaram-no muito mais livre e leve do que pensava: o que viesse, viria ao léu das indiferenças. Ao seu lado, ela conversava com a habilidade de uma docente, a naturalidade de uma paisagem. Ele postou-se como seu aprendiz, querendo mergulhar naquele mundo como se ele fosse uma praia balneável, acessível, anuente. Ela contava histórias e porquês. Ele jogava mais perguntas sobre as almofadas. Ela não continha o olhar nele, não aguentava mantê-lo, um certo medo no errado momento. Alguns sorrisos da narrativa, que depois do quarto ele foi se aproximando lentamente de seu rosto. Ela suspirou, tremeu duas palavras, deglutiu algumas letras e continuou falando, olhando para o candelabro sobre o aparador. Duas velas iluminavam duas pessoas, mostrando que estavam próximas. Quando seus dedos tocaram-lhe a face, ela cerrou os olhos, surgindo determinada aflição e silêncio. Ele percorreu com o dorso dos dedos tocando a tez de sua pele junto aos cabelos. Levou sua respiração bem perto do ouvido, ela tratou aquilo como uma primeira vez. E era, com ele. Mordiscou-lhe o lóbulo da orelha, deixando gotas de saliva que secavam à expiração forçada, vagarosamente abrindo seus poros de nuca e pescoço, alcançando a sua corrente. Fez um traçado com a boca percorrendo uma determinada linha anatômica que ele aprendera na faculdade, e o calor afastara o nome da memória naquele instante. Enfim, seus lábios abraçaram os dela, sem pudor algum para a imediata dança das línguas que não esperaram a orquestra começar. Depois da sede, entreolharam-se com a timidez da juventude que sucumbira nos tempos. Goles de vinho, mais quietude de frases e mais beijos demorados, lânguidos, pseudo-animais. Ele rijo, ela tesa, almofadas no chão da sala, bailado das mãos. Mas não haviam conversado sobre isto antes. Um não sabia o que o outro desejava, ou permitiria, ou sequer simplesmente pensava sobre o significado do prazer. Acaloraram-se, e os gemidos dos organismos fizeram som de balas ricocheteando no corpo da amizade. Estavam matando-a, a sangue quente, rubor e Merlot. Inconsequência, quem sabe. E não precisava atribuir culpa a qualquer um dos dois, era só dolo, duplamente consensual. Ato não consumado, os outros voltaram e o encontro teve o seu fim. A filha dela desconfiou, batom disperso criou um inimigo. No mesmo palco onde uma amizade sofreu atentado, nascera uma inimizade, unilateral. Eles não queriam saber disso. Há momentos na vida em que a gente tranca a realidade do lado de fora, para depois chamá-la de volta, algo compulsório demais para suprimir impulsos. O sexo é o único destino possível ou não para as relações entre quem não soube amar seus amores do ontem, desprezados como se pó fossem e uma simples flanela resolvesse espaços. O amor não é (de) súbito, ele se constrói. Poderão ser ótimos parceiros horizontais, mantendo íntegras as solidões fractais do afeto voluntário. Despediram-se, superficialmente com um beijo formal num breve estalo emudecido ao vento tangente. Nem abraço teve. Chegou em casa e correu para o instrumento. Como é bom poder tocá-lo, mesmo quando não existe melodia...onde não há inspiração...e nem ninguém que pudesse ouvir...  

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Ecléia no Divã




 então... 
 seu amor nem descartável foi 
 pois nem fora usado 
 ou reconhecido, 
 sequer respeitado, 
 muito menos compreendido.. 
 quando amar se torna uma luta, 
 é melhor não participar.. 
 guarde na sua história 
 que a empatia é um princípio 
 sem ela, não há verbos 
 são apenas letras irresponsáveis, 
 tentando escrever em obra deveras alheia...




CONTOS sob a angular do Farol das Conchas


 NAUTILUS 


Homem-peixe, nadava desatento no mar da intranquilidade citadina. Quase de repente, foi fisgado por uma poesia. Do céu de sua boca, choveram versos em lugar de sangue. Uma ferida aberta provocou-lhe o contrário: trouxe vida para o ser, algo digno de justificar existência. Uma vida antes ectópica, até então contida no centro de um coração desenganado pela conveniência ilusória dos romances alheios, passou a ocupar seu lugar certo onde os sentimentos devem ser bem cuidados, lá bem longe do convencional, pertinho do pensamento involuntário, espontâneo, com fluidez e liberdade. E foi aí que sobreveio a principal conjunção adversativa, filha primogênita do destino: "mas". Sobre o convés, debateu-se ao ver que não havia mais ninguém do outro lado da linha que o trouxe ao seu próprio mundo de emoção, ou levou-o à emoção em seu mundo próprio. Nem mesmo a linha estava mais ali, o anzol desaparecera por completo e para sempre, bem como os equipamentos e seu possuinte. Era pesca esportiva, ele seria prontamente devolvido ao mar. Mulheres e homens pescam por esporte, por treinamento, prática, exercício, destreza ou qualquer outra coisa assim. Ignoram o próximo, principalmente como ser vivo, pois o que interessa é lançar chamarizes, só para ver no que dá. Apenas ver, jamais sentir. Vitória, era a campeã da modalidade na região sul. Sérgio, usava a beleza como isca. Coincidência, ambos não sabiam nadar. E foi assim que nosso personagem-mito, abandonado sob o zênite das inconsequências, de tanto debater-se da proa à popa, sem mesmo conhecer a embarcação que lhe dera um novo curso de viver, conseguiu num belo salto ornamental voltado para a sobrevivência, retornar à água. Aprendeu que nadar é preciso, mas de boca fechada: não se pode elogiar sem intenção, é proibido gostar sem desapego. Porque existem barcos desertos de responsabilidades navegando pelos sete mares, satisfazendo-se em retirar de dentro dos outros, aquilo que imediatamente depois da captura passa a ser para eles, supérfluo ou obsoleto. Mesmo que seja algo fundamental e que ainda não tenham vivido: um amor puro. 


terça-feira, 18 de novembro de 2014

FORMATO in FINITO




Havia pouca gente naquela vila. Quase ninguém. Uma vila adjacente à cidade dos homens, campos das mulheres, montanhas de pessoas. E por ser assim, praticamente um deserto de concreto e neon, é que já não fazia mais sentido permanecer por ali. Era preciso um fato novo, uma experiência, um desafio. Algo que transcendesse, que libertasse. Mas os sujeitos hesitam muito em abandonar o passado, chamando-o equivocadamente de presente, coisa tradicionalmente hereditária, cultural, costumeira, de resistir bravamente até o fim, como se houvessem outros inimigos num front cujo oponente é uma outra parte de si mesmo. Um conservadorismo motor correndo nas veias latinas de ser usurpado pelo destino mais forte. Um protocolo, talvez. Então há momentos na vida em que se faz necessário quebrá-lo, em mil pedacinhos acrescentados ao pó da estrada, rompendo laços físicos sem mexer na emoção, bomba de hidrogênio. De porte de uma habilidade manual precisamente cirúrgica, fez as malas, poucas malas. Nas malas da alma, não cabe quase nada além de algumas mudas de consideração, trouxas de moral, sacos de virtudes, pastas de aprendizado e pilhas de esperança. Pronto, a bagagem está completa, é hora de partir. O espírito vai na frente, bem adiante, abrindo o caminho e mandando notícias, dos dois mundos temporais, tentando alcançar um verdadeiro presente. Para quando o corpo chegar, não mais se surpreender com solidões ao lado, silêncios ao fundo e perspectivas em lugar nenhum... 


 "Home" / Daughtry 



Navegando em Continentes








MESTRE JONAS fora da baleia


 - HOJE - 


 MESTRE JONAS e a BELEZA 



segunda-feira, 17 de novembro de 2014

phOTOCALIGRAfIA







SESSÃO AlTo ReLeVO


 - O que faz aí, minha senhora? 
 - Velo um amor. 
 - Já não vela, porque ele já se foi. 
 - Velo, aquilo que eu não fui para ele. 
 - Se não foi, qual a razão de chorar? 
 - Porque isso, isso nunca morrerá... 



 - esboço de escultura / João Turim - 


 {O organismo que ontem produzia ácidos neutralizantes, amanhã elegerá um lugar  simbólico, 
 para  venerar um presente de ausências..} 


[Não chores minha morte 
Lamentes tua vida 
Pelo que não fizestes na minha 

Não supliques minha presença ou volta 
Ore por tua ausência ou continuidade 
Que de tempos esverdeará 

Desenho que não representa a morte 
Imagem que apenas traduz lamento 
De uma ausência dentro de outra vida... 

Alguém não está lá 
Onde não existe lápide alguma 
Tampouco lágrimas 
Nem mesmo corpos 
Que pudessem se encontrar.. 

Inspirações não se materializam 
É o vento sobre a terra 
Impossível de abraçar.]