quarta-feira, 19 de novembro de 2014

CONTOS sob a angular do Farol das Conchas


 NAUTILUS 


Homem-peixe, nadava desatento no mar da intranquilidade citadina. Quase de repente, foi fisgado por uma poesia. Do céu de sua boca, choveram versos em lugar de sangue. Uma ferida aberta provocou-lhe o contrário: trouxe vida para o ser, algo digno de justificar existência. Uma vida antes ectópica, até então contida no centro de um coração desenganado pela conveniência ilusória dos romances alheios, passou a ocupar seu lugar certo onde os sentimentos devem ser bem cuidados, lá bem longe do convencional, pertinho do pensamento involuntário, espontâneo, com fluidez e liberdade. E foi aí que sobreveio a principal conjunção adversativa, filha primogênita do destino: "mas". Sobre o convés, debateu-se ao ver que não havia mais ninguém do outro lado da linha que o trouxe ao seu próprio mundo de emoção, ou levou-o à emoção em seu mundo próprio. Nem mesmo a linha estava mais ali, o anzol desaparecera por completo e para sempre, bem como os equipamentos e seu possuinte. Era pesca esportiva, ele seria prontamente devolvido ao mar. Mulheres e homens pescam por esporte, por treinamento, prática, exercício, destreza ou qualquer outra coisa assim. Ignoram o próximo, principalmente como ser vivo, pois o que interessa é lançar chamarizes, só para ver no que dá. Apenas ver, jamais sentir. Vitória, era a campeã da modalidade na região sul. Sérgio, usava a beleza como isca. Coincidência, ambos não sabiam nadar. E foi assim que nosso personagem-mito, abandonado sob o zênite das inconsequências, de tanto debater-se da proa à popa, sem mesmo conhecer a embarcação que lhe dera um novo curso de viver, conseguiu num belo salto ornamental voltado para a sobrevivência, retornar à água. Aprendeu que nadar é preciso, mas de boca fechada: não se pode elogiar sem intenção, é proibido gostar sem desapego. Porque existem barcos desertos de responsabilidades navegando pelos sete mares, satisfazendo-se em retirar de dentro dos outros, aquilo que imediatamente depois da captura passa a ser para eles, supérfluo ou obsoleto. Mesmo que seja algo fundamental e que ainda não tenham vivido: um amor puro. 


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