quarta-feira, 16 de agosto de 2017

A Falta em Particípio











A solidão de quem não ama, é diferente da solidão de quem é amado. Uma pessoa pode não amar alguém, mas se for amada por outros, vive diferentemente. Digamos que sua solidão não tem tio na sílaba tônica. Ou podemos remover a letra “o”, para tentar demonstrar tal diferença, de intensidade, por exemplo. Quando se é amado, seja por amigos, parentes e colegas, há suporte, apoio e outros sinônimos. Há gente, calor, diálogos. Pode-se conjugar tantos verbos como sair, passear, viajar, telefonar e etc. Esta solidãozinha, exercita através de vários movimentos a língua nacional, é uma cidadania prática. Enfim, é uma quase não solidão; por ser uma escolha de um caminho individual no meio de outros, um banco no trem onde viaja mais gente, uma bicicleta andando no parque, onde só vai um, só passa um, só cabe um dentre tantos ao redor. Aquela, a outra solidão, a total, é o oposto. Tanto, que deveria reivindicar para si, a exclusividade do substantivo. Não há movimentos, palavras, gestos, encontros, contatos. Ela é tão forte e presente, que não precisa de suporte ou apoio, ela existe 'antonimamente' às inter-relações pessoais de amizade, parentesco e coleguismo. Uma língua tão rica, empregando a mesma palavra para semânticas tão distintas. Nesse furto erudito, o colóquio é menor de idade, incapaz. Eu queria poder juntar essa multidão de gentes, os solitários com satélites, e explicar para eles o que é a verdadeira solidão. Não a título de ensino ou maestria, mas só para informação, até quem sabe um reconhecimento da parte deles. Pois aprendi a tomar café sem leite. Comer pastel em pé na Brasileira. Almoçar sozinho aos domingos. Cruzar hipermercados, lojas de departamentos, estádio de futebol, parques, ciclovias, calçadas, ruas e avenidas, tudo isso sem ninguém ao lado. Passear com o cachorro sem alarde. Andar de óculos escuros sem sol, caminhar longe sem relógio, dirigir defensivamente sem brecar, tudo isso sem baixar a cabeça. Vestir pouca roupa no frio, desafiar tempestades sem guarda-chuvas, fotografar o que me dá vontade aonde for, tudo isso com discrição. Sentir num livro, uma companhia quase humana. Sei tocar instrumento médio e cantar baixinho, enganar insônias, dormir bem no inverno, despertar indiferente em todas as estações. Cozinhar para um como se fossem dois. Reservado, choramingar de alegria ou sensibilidade diante das coisas importantes da vida. Aprendi que escrever é a minha forma de felicidade. E, principalmente, sonhar comigo mesmo, apenas eu. Eu, imaginando que esse mesmo mundo, fosse outro. Eu, que agora repeti o que disse uma vez. Não tem problema: ninguém ouviu... 



Nenhum comentário:

Postar um comentário