domingo, 8 de março de 2015

CLASSIFICADOS Pagãos


"NÃO PROCURA-SE uma mulher. Uma mulher que seja receptiva, e ao mesmo tempo dinâmica. Que compreenda as várias formas de carinho, sem confundi-las com dominação, inversão de valores, submissão, essas coisas todas do poder. Uma mulher que também não pense que gentileza é mimo, ou que agrado é paparico, que compartilhar seja emprestar, nem que doar seja dar. Alguém que saiba as diferenças entre os significantes e os significados, nem tanto por conhecer a língua, mas em perceber através dos sentidos as verdadeiras manifestações da natureza. Alguém que adore essa natureza, que sonhe com ela, que a deseje, que a persiga, e que a usufrua quando e o quanto possível. Alguém que encontre nela o equilíbrio necessário para enfrentar os dias, as tardes e as noites das realidades imperfeitas. Que valorize o perfume das flores, o cheiro das matas, o curso dos rios, a imponência da montanha, a brisa do mar. Que sinta a vida no toque das mãos e no gosto de um beijo. Que se sinta bem ao sol, que se entregue aos banhos de chuva. Uma mulher que faça da música um colo, da poesia outro colo, e de todos os colos princípios daquele carinho. Uma pessoa que tenha consciência dos espaços e do tempo, das individualidades e das companhias. Alguém com discernimento suficiente para reconhecer virtudes e afastar efemeridades, futilidades e irrelevâncias. Uma mulher que faça do sexo uma ponte para lugar nenhum, bastando estar sobre essa ponte quando o desejo vier. Uma mulher que diga não. Uma mulher que também diga sim. Mas que diga tudo após reflexão, longe de imediatismos, conceitos, preconceitos e maniqueísmos baratos. Alguém que respeite toda amizade, que seja amiga, e que esteja aberta a novos amigos, que não seja uma pessoa pronta, finalizada, nem livre de sonhos ou de conquistas, e sim que anseie por novas possibilidades. Uma mulher que faça da verdade uma base, do diálogo um instrumento, e da liberdade um porto. Que tenha humildade para pedir ajuda, e coragem para oferecê-la. Que goste de caminhar, passear, andar de bicicleta, correr, fazer exercícios, mergulhar, nadar, tudo ao ar livre. Que saiba dos momentos, quando eles devam ser a dois, a mais que dois, a um monte de gente ou a sós. Que não tema o medo. Que estenda a mão, que peça cafuné, que faça um café, que divida um jornal. Que divida um livro, toque um CD, traga-nos um filme. Que faça do meu peito seu jardim, dos meus braços seu balanço, do meu corpo seu brinquedo sério. E que não faça das redes sociais, uma realidade. Uma mulher que me ouça, que me pergunte, que queira saber de mim, e que eu possa fazer tudo isso e muito mais com ela e por ela também. Alguém que sorria junto, lamente junto e faça isso reservadamente quando quiser. Uma mulher recíproca por excelência." 

Enfim. Não procuro por uma mulher assim. Existem algumas por aí no mundo desse jeito, mas ninguém deve procurá-las. Se alguém merecê-la, ela despontará. Assim como não se procuram estrelas: pode ser apenas o brilho delas, se elas já tiverem morrido. Além disso, as estrelas estão acima do plano de olhar. A mulher em questão, só pode ser vista olhando para dentro. E dentro de mim, não é o mundo. O meu mundo, é uma tese, uma folha em branco, uma antítese e um ponto final. Minhas reticências, são apenas rastros das minhas desilusões. Os intervalos entre meus textos, são expirações de desamor. Em meu mundo, há oxigênio só para mim. O resto, é subsunção, anarquia ou consciência. Tantas palavras que saem do meu mundo, que nunca é demais repetir que ele é outra tese, outra folha em branco, outra antítese e outro ponto final. Sim, este é o mundo de uma solidão. Existem algumas por aí no mundo desse jeito, mas ninguém deve procurá-la (a solidão). Mas ninguém deve merecê-la. Se ela vier, não será por brilho. Será por opção. Eu não sabia, que minha solidão era fruto de uma escolha. Por isso, eu não procuro a tal mulher. Ela jamais seria tão bela quanto a minha solidão. Minha solidão não tem ciúme: posso fazer da minha vida, inúmeros pontos finais. A solidão, é definitivamente o meu deus. Ela é a criação. É eterna, imutável, incomparável, perfeita, imensurável, inencontrável, incompreensível. Justa, onipotente, onipresente, onisciente. Una e reta. Soberana, invisível, verdade. Ela é fogo e ao mesmo tempo bondosa, graciosa, benevolente, misericórdia e amor, tudo isso para comigo. Portanto, não há o que procurar, minha felicidade é assim desse jeito, feliz ou não. Minha solidão deseja me conhecer. Tenho vergonha em pensar que ela sabe que eu não sou religioso, mas que acredito nela, como Ela sendo Deus para mim. E fico encabulado ao lembrar que ela já sabe que um dia eu fui ateu. Mas não há Jesus algum em meu mundo: minha solidão, é estéril. Por isso eu jamais fiz nascer um Amor: tenho fé é no desamor. Meu símbolo é o litoral, meu templo é o oceano, meu altar é a beira-mar, meu dogma é a poesia, meu carisma é a música e meu rito é a escrita: eu também não sabia que eu era religioso... 



Nenhum comentário:

Postar um comentário