domingo, 1 de maio de 2016

Contos de Pininfarina



O cair da tarde de domingo. Uma aeronave contra sua ascensão. A porção final das cataratas, o último hectare da queimada, o chão se aproximando do precipício. Tudo vai se fechando ao redor, apertando o peito, contraem-se os músculos e a luz dos os vasos sanguíneos também diminui. Não adiantou o sol daquela manhã, o fim do dia é sempre inevitável. Então, os amanheceres são máscaras que inventamos no baile do dia que se encerra antes da noite verdadeira. A que ponto se chega, quando o sol torna-se uma ilusão. O dia mais hipócrita da semana, oscila tanto quanto a maré, mesmo sem correntes para empurrar. Ou será que eu não vejo essas correntes? Elas existem? Para todos? Parece que sim, e nós nos diferenciamos é pelos nossos olhares. Visões de mundo que vão além dos limites do globo ocular, da caixa craniana, dos compartimentos atriais e ventriculares daquele órgão batuqueiro e bobo no lado esquerdo do tórax. Eu não sei para onde vão, estas visões, ou ao menos até onde deveriam ir. As minhas já não estão mais por aqui, perderam-se ou se encontraram no universo. Num ponto qualquer não equidistante entre mim e o deus oblíquo que eu nunca vi. Uma resposta que sobe, sobe, sobe lá na exosfera para repousar numa estrela. Não basta que eu saiba a direção na qual partiu da minha realidade, eu vi o que era e tenho ciência de que foi embora. Minha condição humana faz-me inerte sucumbindo à gravidade planetária, restando-me a beira-mar como consolo. Ao mergulhar, posso fingir estar no céu. Perto da tal estrela. Quase vejo deus, parece frontal. Não é a água que impede, turva é a minha consciência. Assim como o oceano, sei onde fica o sentido. Vou para lá. Antes que eu me afogue em terra, dentro de outro domingo arrebatador de corpos vulneráveis à própria existência humana, pela ausência de movimento, pelo silêncio dos sentimentos, pela obscuridade das intenções, pela carência de interpretação e pela inutilidade das palavras, sem coração onde pudessem ecoar... 




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