terça-feira, 12 de abril de 2016

Entorpessoa..



Não adianta um ponto final. Meras reticências, nem exclamação. Uma despedida, um adeus, sinais de aceno, aperto de mãos, aquele abraço. Uma carta, mensagem, recado, aviso, ligação urbana. Um gesto, um brado, um grito, tampouco o silêncio. Tudo em vão. Quando começa o fim, inicia-se uma fase que não se acaba. Um encerramento que não termina, se eterniza em tempo e espaço; todavia se se acabasse, seria como se o todo ou o nada voltasse. O fim, não tem final. É um começo que corre pelo sangue enquanto houver corpo, se escondendo nas sombras das vísceras, dos órgãos e dos ossos. Não há força muscular que o expulse, tornou-se, o fim, uma parte oculta em nós, jeito de lua. Por mais que digamos, que neguemos, que fujamos, ele está no meio de nós em lugar do que sugere a escritura. Escrevê-lo, desenhá-lo, pintá-lo, contá-lo, é sempre mentira. Não há o que se fazer com um fim em si. Evaporássemos, ele precipitaria sobre nossa imagem na lembrança do pensamento alheio. É um fim invasivo, disseminador, imperial. Uma conquista espacial e temporal, sem cortes nem sangue; com ardência e dor, muita dor. Um verdadeiro paradoxo, o fim tem natureza de começo, embora não seja o mesmo. Porque é um recomeço a cada manhã, caracterizando uma continuidade sem solução de. Quando chega a noite, mais recomeço, mais lado escuro, mais luz na consciência daquele amor que nunca pode ser um amor. Um amor que recebeu título de dor, ausência de cor, desprezo de flor. Já se usou de tudo para que este fim se acabe. Mas absolutamente nada será feito, para que ele vá-se embora. A afirmação do fim, sua presença, é a justificativa permanente para todo e qualquer momento em que se pense, como era antes do tudo se transformar em nada. Enquanto houver fim, em mim eu permaneço. Não quero a verdade de um começo propriamente dito. Começos assim, são aqueles períodos onde a ilusão serve como sentimento. Onde o sentimento engana a emoção. E onde a emoção finge que é amor. Letras e glóbulos correndo no papel e no organismo. E ninguém andando ao meu lado. Ninguém andando sobre meu abismo imaginário, que é na verdade uma ponte férrea de afetos dormentes: a cada metro, cada hora, cada aniversário, estação e jantar, pisamos tropegamente em nossas próprias escolhas... 


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