quarta-feira, 13 de maio de 2015

Crônica Cotidiana 17



A mesa grande das mães. Outro motivo para reunião sazonal de família. Ocasião de perdões e caridades, obrigatórios até para não religiosos. Pecador para eles, lhe pediram que desculpasse alguns integrantes: fez bem menos do que isso, emprestou esquecimento, véus de indiferença. E foi. E chegou, e ficou menos do que devia, bem mais do que suportava. Gente que se calou no passado, quando consciente e voluntariamente escolheu distância, hoje finge que não foi assim. Este dia, é realmente uma pobre peça teatral de roteiro improvisado e barato. Atores sociais se achando reais parentes, próximos e alguém significante a ponto de merecer atenção. Frases colidindo em acidentes laterais e frontais com outras frases de outros condutores, um caos no trânsito de palavras sobre o anti-pó das refeições, o pretexto do impossível. Do vinho fez-se a chuva, que ele, em seco, deglutiu apenas água. Os encharcados esbaldavam intimidades, conhecimento e opiniões, transbordando certezas. Ele, Renato, atento ouvidor. A encenação não escondia conceitos, os olhos falavam pela consciência amordaçada. Entre nãos e evidências, as pessoas comemoravam algo com jeito de protocolo e ares shakespeareanos. Um drama vestido de comédia, flores artificiais na bancada de um inodoro recinto. Histórias narradas sem cronologia, mas com a soberba de quem atropela o próximo e se evade do local. De tão decantadas, por ora perderam seu HI para o E. Arriscou algumas interlocuções, em vão, diante da desatenção alheia. Mudou a tática, deu tiros curtos sobre os pratos, tilintando nas taças, Melhoral foi seu placebo. Pronto, ele havia representado bem ou mal o seu papel de rebelde ressocializado feito criminoso condenado sem contraditório nem defesa, para ampla alegria da matriarca, a única que ele considera. Não guarda rancores de ninguém, apenas respeitou a vida inteira as opções de afastamento por parte dos tais. Só não pactua com estes encontros, com quem há muito já definiu lonjura. Sem mágoas, vai fechando seus ouvidos, balançando as chaves e abrindo uma justificativa qualquer para o abortamento daquela fraternidade reinventada: saiu à italiana, pela porta da frente depois da despedida aos que nunca mais estiveram. Que a força os ilumine, pois ele está bem longe do caminho deles, diz-se, afeição. Um mútuo de sentimentos ausentes, bem como de reciprocidades nulas, culminou depois com a tranquilidade no ambiente sem quem não faria falta alguma ou diferença se não comparecesse: Renato. Assinou o ponto, bateu o cartão, fez vontade de superior em grau de parentesco. Pessoas que não são mais parentes. Num lugar que não é mais praia. Não adianta revolver tempo e espaço daquilo que não mais existe. Etiquetas, boas maneiras, é hora de voltar para o mar. Sua casa, onde ele é pai e filho, rei e súdito, presidente e povo. Não desejava que fosse assim, mas a vida é feita de escolhas. Não foi ele quem partiu pelos descaminhos anti-fraternos. Voltar atrás, é mexer em cinzas, ocultar breus, negar o vermelho, ignorar o azul. Cores mórbidas ou neutras prevalecendo, o futuro não admite o passado quando dele na época se fez passado. Assim, um presente forçado é desenredo. Vidas consanguíneas, são para serem convividas e compartilhadas constantemente. Afetos, se frequentam. O resto, é figuração. Com uma generosa dose de Underberg. Seu paladar não foi treinado para tão pouco e amargo sentido. Tudo isso se deve à sua pauta de valores, cujo alto preço lhe faz adimplente: a ética, também tem sua dimensão relacional, ele preza por isso. Sua noção de família é outra, bem longe daquela. Tão longe, que nem mais sabe onde está...



Nenhum comentário:

Postar um comentário