segunda-feira, 25 de maio de 2015

Contos do Cais de Conta




MAR À VILA 
No mercado marítimo do amor legítimo, fui paralelo contrabando, ora escambo e vulgar. Para mim contravenção, o que para elas foi sempre irrelevante. Eu sabia tudo, nada sentiam. Que nem em crime daria, este vulnerável peito de emoções ilícitas, abissais. Insuficiente, restei na base da plataforma sentimental, às margens da sociedade afetiva, do lado de fora de todos os corações. Alguma coisa na existência me impediu tal prazer, não fiz jus a tanta felicidade, como se pudesse haver pouca, ou intermediária também. Vê como tamanha, aquele que nunca viu. Quaisquer gotas, são chuva. Qualquer réstia, é sol. Toda terra é chão e todo vento é direção. Um brilho é prata, outra cor é ouro, quando não se entende do assunto. Dos pássaros fiz liberdade. Meus animais domésticos reciprocidade foram, e eu sem nenhuma companhia racional. Os sons da natureza, eu louvei. Suas cores, eu pintei sem desenhar caminhos. Só fiz rabiscar palavras em papel tão branco e vazio quanto minha vida de paixões migrantes daqui. Tanta força (na ausência) de sentidos, que ainda sou menino de realizações, apesar de senil em experiências. Um paradoxo em mim, extremos que jamais se uniriam. Talvez o amor fosse uma ponte. Construí metades, pelo menos sobre as águas do destino, que logo me levavam embora dali, sem me machucar, nem correnteza. Não havia espaço para lamentação, o tempo já chamava de volta para o mundo real do não ser. Cais de ninguém. Não vi gnomos em minha floresta. Nem alienígenas em meu céu. Mas sempre tive a consciência de que, no meu mar, fui imperial navegante. Passeei pelas superfícies das relações, linha d’água divisória sobre os aconchegos. Mergulhei, eu sei: em vão, no oco, para o vácuo, pelo nada. Oh, dor que me alimenta, tenha paciência com este marujo, continue-se eternamente amarga em seus ácidos aminos. Pois se você cessar, eu afundaria no mais raso texto, sem ondas doces que pudessem me atracar... 


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