quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

CURTA - cronoMETRAGEM


A CHEGADA 

Eu não acreditava em sonhos. Até que me vi dirigindo numa estrada deserta, rumo ao interior. Uma planície, pradaria esverdeada, vegetação densa ao nível do chão. De repente, do alto de uma colina, o veículo suspendeu no ar como um Boeing vazio em decolagem, me elevando a dezenas de metros de altura. Uma visão espetacular encobriu o susto, pois homens não voam, ao menos de dentro de suas máquinas terrestres. Mas era sonho e no sonho tudo pode, qualquer ternura, assim como beijos na boca da mulher proibida. O verde tornou-se maior, mais escuro, mais intenso, mais verde. Eu, voando sobre o chão, rota de minha vida. Não se via pessoas, animais, casas, construções, quaisquer sinais de civilização. Apenas a natureza dominante do ambiente, extensão sem fim. Eu não olhava para o céu - me sentia elemento dele - apenas para baixo. Mas eu estava subindo, já fora do carro que se desfez num instante que nem sei. Flutuei como nunca. Bem mais do que um mergulho no rio, que na vista do topo da montanha, que boiar em mar de almirante, que o rolar de dunas altas. Sensação única, quase não existencial. De tantas interpretações, somente uma é válida, assim como na vida, em relação aos fatos e sua verdade. O que extrair disso, é dúvida que nasceu junto deste meu amanhecer. Talvez sinal de que meu mundo anda mesmo deserto. Que eu preciso ascender em algum sentido. Ou então que os sentidos já não fazem mais sentido e a hora é essa, meu tempo se foi. Se morrer é assim, tão bonito para quem se vai, talvez eu deixe por aqui as lágrimas, todas. Não ficaria de bom alvitre, lá de cima molhar em vão ou atingir ninguém aqui embaixo. Apesar de que os prantos só fazem sentido se ocorridos em reservado. Mas isso é por aqui, na Terra. Eu, no sonho, já não estava mais aqui. Uma outra dimensão foi anunciada, onde tudo é muito diferente, prevalência de tantos contrários. Lágrimas? Lá, já percebi que seria muito banal chovê-las apenas sobre árvores tão bonitas... 




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