quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Contos muito aquém da copa das Araucárias / +


 A MENINA MOÇA 



- A isenção é realmente o melhor condutor. Pode nos levar a extensos panoramas, vistas deslumbrantes, caminhos infinitos só pela leveza do desapego. O Estoicismo, é mesmo uma escola filosófica com jeito de academia superior. Como foi bom encontrar os elos desta corrente - 

Anteontem, um cumprimento junto com generoso sorriso e igual aceno, ele nem lembrava quem era. Pule-se ontem, como rege a lei das coisas. Hoje, ela parou em sua frente. Apresentou-se para a conversa, ele educadamente deu inicio ao diálogo, lembrou-se. Dois ou três minutos foi um tempo muito além do que nem se esperava. Para ele, uma surpresa, para ela, não se sabe o que. Isento de tudo, entregou-se à naturalidade de uma conversação idealmente civil e civilizada. Fez lembrar que é extremamente prazeroso falar assim, desprovido de ideias ou pensamentos, curiosidades ou pretensões, quereres, vontades ou desejos, e também por outro lado, de interesses de qualquer espécie: exercício de liberdade plena. Mas ele refletiu sobre aquilo, sem precisar buscar sentido. Sua jovialidade (dela) transbordava ao redor dos seus cabelos dourados, ela devia ter algo a ver com o sol, em tons de princípio. Permaneceu sorrindo o tempo todo, jeitinho de manhã. Ele não olhou para o seu corpo, apenas viu aquele dócil semblante. Ele perguntava, ela se soltava nas respostas. Ele, do alto das suas quase três décadas à frente da mocinha vintenária, absorvia aquilo como quem chega na praça, e depara-se com espaços, relativos a natureza virginal das coisas dali a ser desbravada com lentidão, mas só para quem se habilita. Ela contou da sua faculdade, do trancamento de matrícula, do novo vestibular, notícias de broto procurando a luz. Não a aconselhou, por não fazer sentido, apenas apoiou a mudança, algo que talvez ela estivesse precisando. Simpatia imensa a da guria, de animar o mais incrédulo dos céticos nas relações deturpadamente sociais. Mesmo falando tanto, ela ficou sem jeito, e num impulso foi para a esteira da academia, deixando no ar que havia bastante ainda a ser conversado. E ele foi embora pensando nas coisas do tempo...se ele tivesse a idade dela, talvez fosse tomado pela vontade de conhecê-la, pois o papo foi de uma fluência ímpar, como se no passado, quando ela tinha uns dez ou doze anos, as então famílias se frequentassem. Mas o ‘se’ é uma hipótese morta, que alguém se esqueceu de enterrar. E aquela menina representava vida em ascensão. Noutra especulação do pensamento, ele viu-se dando orientações a ela no sentido profissional, conversando mais a fundo, em outro lugar. Então iria embora, depois de um tchau fraterno, para aquela que era irmã da amiga da filha dele. O limite, a certeza, a razão, ponto final. Mas eis que a vida não encerra surpresas enquanto se vive: ela no dia seguinte o procurou novamente, desta vez na saída do lugar. Chamou-o pelo nome, e disse-lhe que queria poder lhe falar uma coisa. Totalmente longe dali, ele indagou. Não tivesse feito isso, devia ter desconversado e ido embora tomar logo seu banho, a velha desculpa do horário de trabalho, mas ele jamais imaginaria tal acontecimento: ela confessou num rampante bravio de sua ingenuidade que desejava sair com ele, mas "só pra conversar". Sua experiência, lhe fez conduzi-la a um canto em reservado no jardim, ela pensou que ele fosse beijá-la. A maioria dos homens talvez fizesse isso mesmo, ele não, é minoria em extinção, esta uma das suas poucas excentricidades que lhe dão certo orgulho. Falou para ela que gostava muito dos pais dela, da outra irmã, e que lamentava a separação deles, embora devamos respeitar a busca de dias melhores para todos, não importando quando. Que ela era uma moça muito bonita, alegre, conversadora, agradável, legal, mas que ela deveria buscar amigos ou relacionamentos com rapazes da idade dela. Não por preconceito, nem por tabu ou medo de encarar algo absurdamente novo para ele. Mas por nexo, por noção, por sentidos, consciência e tudo mais. Quando ele percebeu, rolou uma lágrima no rosto dela. Ele a abraçou e deu-lhe enfim um beijo: na testa. Ele, antes de mandar um abraço para todos, finalizou dizendo que isso passaria, que hoje chovia, mas amanhã haverá sol. Lembrou-a do apelido que ele tinha dado a ela no passado, reiterando que para ele, ela nunca teria nome, só aquele apelido. Ela sorriu, e vai entender tudo com o tempo. Logo irá gostar de alguém equivalente ao seu próprio tempo. Ele se foi, sem pensar por que motivo ela havia invocado com ele, coisas da vida, sabe-se lá, não é preciso se explicar tudo. Mas ele não saiu dali sem perplexidade, em relação aos rumos que as condutas das pessoas estão tomando, a juventude, principalmente quanto à sua motivação, suas razões de ser, quereres, vontades, desejos...carências! Seria tão fácil e irresponsável levá-la para casa, fazerem sexo, ele ensinar sexo a ela, tornarem-se parceiros de carinho impossível. Os caminhos mais fáceis são mesmo os piores. É muito difícil um homem experiente gostar de alguém sem malícia, sem anos de vivência, sem aventuras, sem vitórias, sem discernimento, sem crivos, critérios nem consciência crítica para dizer não a este mesmo homem. Um homem só pode gostar de verdade quando aceita a negação como parte do relacionamento, como risco assumido, é o não caminhando junto com o sim. Do contrário, não há sabor, não tem graça, é só calmaria em água morna. Corações precisam arder, queimar mutuamente o fogo que esquenta o espaço do peito, espalha-se pelo tórax, aquece e excita o resto do organismo. As mentes precisam indignar-se, revoltar-se saudável e pacificamente contra os silêncios, as indiferenças e os medos da pessoa amada. Quem ama não cala. Quem ama tem coragem de se propor ao amor, mesmo que ainda não ame ou que não seja amado. Mas há aqueles que não querem amar ou que nem querem ser amados. E tem outros ainda que se negam em amar quem já os ame, não estão errados. Foi assim com ele em relação à menina, o mesmo que se deu com uma mulher em relação a ele em outra época da vida. Não adianta, o amor é mesmo um festival de reciprocidades. Tudo aquilo que é unilateral, tende a secar no sol como as frutas que não foram apanhadas maduras nos galhos das árvores: perdem a cor, perdem seu tempo, morrendo no espaço a chance do amor. Todo dia é uma nova chance. Mas atenção, porque não há novas chances para um mesmo amor...
No dia seguinte, 'Dagoberta' voltou ao seu horário normal de exercícios naquele lugar. 




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