Diametralmente oposta a qualquer ordenamento jurídico, DESUNIÃO ESTÁVEL é uma imaginária relação multiafetiva ousada entre a Poesia e a Música. Como esses valores estão em declínio nos dias pós-modernos, decidi promover impulsos de acasalamento sentimental entre ambas, com a substancialidade e a emoção que brota dessas duas formas de expressividade dos sujeitos na sociedade civil, ou seja, nascentes da natureza humana. Aos amantes, as cortesias da Casa.
feriado nacional. pessoas reunidas, almoços, passeios e
atividades mil, alguns descansos, eu não. eu permaneço em meu quarto. meu
quarto, que não é um lugar no espaço. meu quarto é um estado, um modo e também
um aglomerado de instantes que se infinita acabando com os limites do tempo.
ele é a minha dimensão particular, com a característica de ser indeterminado,
não cabendo qualquer coisa que se individualize. tudo que há em mim, ou no meu
quarto, está relacionado com tudo o que eu sou, o que eu fui e o que pretendo
ser, somando-se a isto todos os nãos, os nuncas e os jamais. é um portal
imaginário a partir de onde eu realisticamente cultivo meus valores, rego meus princípios, podo minhas condutas. são coisas que não se confinam, nem se
demarcam, muito menos se restringem. ao contrário, ele é volante, móvel,
itinerante, nômade como eu. lá, ou aqui, tanto faz, é minha garagem de
palavras, minha estação de sensações e ainda meus trilhos de expressão. tudo isso
sem comportar sentimentos. só porque nossos sentimentos não dependem da gente.
por isso não há cadeiras em meu quarto. não há chão, predomina o céu. não há
paredes, predomina o cosmo. não há portas, predominam os caminhos. mas tem um
sem número de janelas que são placas indicando estes caminhos. meu quarto me
acompanha onde eu for. meu quarto foi de onde parti para o mundo, que fica
dentro dele. plano de escrever, que é desenhar a vida que eu não vivo. pintar
com as cores mais vibrantes o elegante black-tie de todos os meus mais queridos
silêncios. meu quarto não é a minha vida, mas sim aquilo que eu considero que
ela seja. por isso, eu nunca estou só. pela natureza da ideia, há sempre alguém
indeterminado me acompanhando. pode ser que seja a solidão. pode ser que seja
deus. pode ser que seja alguém...
Há tempos, eu não ia ao centro.
Só o cortava, rodando sobre o asfalto frio e opostamente congestionado do
coração de uma metrópole. Às vezes, precisamos ir ao centro da cidade. Mas eu
não sei se o centro da cidade é o centro das pessoas, parece não ser. Pessoas
no centro, não significa que elas estejam centradas, reflexão difícil essa. E é
preciso ir ao centro, porque lá existe inspiração. Uma fonte inesgotável de
inspiração, para quem tem sede da sua. Eu vinha do deserto. É, eu vim de ônibus.
Depois do ofício, ia desviando das fumaças secundárias de fumantes nas calçadas do câncer anunciado, que bom que eu faço apneia terrestre. Comecei pela praça
do mártir. Atravessando-a na diagonal de sempre, sinais de sintomas doentios da
grande capital. Duas prostitutas gordas lotavam um banco de quatro lugares. Cafetões,
michês aos montes. A banalização do sexo espalha-se pelas tardes, desde manhã.
À noite, provavelmente algo que não sei ao certo o nome, daquilo que se perde
num submundo de sinônimos. Todos eles, são feridas do tecido social, dentro de
um Estado policialesco que é mais juiz indiferente do que operador da saúde
física, mental e principalmente social dos seus habitantes. Ao lado do elevado
histórico envidraçado, uns tirando fotos sem se importar o que era aquilo,
muitos turistas com poucos equipamentos. Outra gordinha, vendedora das lojas
ponto com, tentava me seduzir com um aparador de barba que segundo ela “cortava
qualquer coisa”: educadamente deixei-a corada para tentar ensiná-la a não viver
em duplo sentido, arriscar-se assim não compensa. Na livraria do lado da Boca, ausência preocupante de livros
de Odontologia. Dentro da brasileira pastelaria mais bonita da cidade, alguém
pagava em alta voz uma aposta de futebol ao funcionário, deu vinte e pegou
dezesseis reais de volta, no mínimo suspeito, mas também insignificante. Então,
o retorno para casa, sessenta minutos corajosamente a pé, para observar em caminhada algo que
pudesse trazer e deitar em papéis, a partir da extinta pharmácia com nome de
deusa, tentando seguir a simbólica linha vermelha do descobrimento sem sair
dela. Abriram as portas dos hospícios, dos armários, ex homens desfilam sua
libertada feminilidade no calçadão, entre loucos e preconceituosos. Meninas novas
erotizando-se dentro de roupas mínimas em detrimento de sua adolescência. Velhos babando abandono e fracassos relacionais
por entre os quiosques. Uma trupe de punks se achando na moda. Bela morena
decotada arrumava seu salto sentada no banco provocando desejo em outra mulher
provavelmente desconhecida ao seu lado que fingia estar conversando no celular.
Na frente da mais antiga universidade do país, um playboy démodé correndo em
seu PT Cruiser, com adesivo de um tucano fantasiado de Brasil no vidro lateral, acelero para economizar atropelamento. Passei por um conhecido, que de
tão magro talvez não fosse ele, hoje em recuperação química: ainda cursa Psicologia.
Sinais para pedestres não oferecem tempo suficiente para se atravessar nos
sinaleiros, trânsito caquético, ausência de doutores no tráfego político
municipal. Cabelo negro e lindo voava na tarde numa bicicleta, pensei que era a
bela, infelizmente não, foi um japonês...devia levar muitas encoxadas no
ônibus, por isso mudou seu meio de transporte. Na Reitoria, uma bailarina
balzaquiana ostentava seu exagerado silicone como se fosse um troféu
permanente. Seu Chaim me cumprimentou na livraria, lugar modesto demais que
traz uma deliciosa sensação de estar na casa da vó: tem café e histórias, tem livros, e caminhos.
Eu subo a ladeira sulista sem paralelepípedos, mais bicicletas se arriscam na
faixa exclusiva dos coletivos, os quais não têm piedade de nós. Um meliante
saiu do meu caminho, frustrando sua provável má intenção, repelido pela minha
barba vermelha-e-preta-e-branca. Acho que Vanessa da Mata passou por mim, mas
devia ser Vanessa da Pinha. Os frentistas não me reconheceram longe do
automóvel, vida de associação. Num Café ectópico, pessoas happy comendo a hora. Uma lembrança, outra saudade, nenhuma lágrima
no caminho. O corpo agradecendo pelo exercício, a mente pelas reflexões. Não
foram tiranas estas léguas, houve relaxamento no final. Por ter-me inspirado
novamente. Inspirar é pairar no ar no céu do nosso mundo, e dali contar o que
se vê, o que desapareceu, o que jamais voltará e o que se sente, até mesmo em
relação a tudo isso, quem sabe um expirar. Porque inspirar-se, é respirar o centro e depois ir à
periferia das pessoas, equilibrando as andanças existenciais. Tenho em mim, o centro
e a periferia. Não possuo instrumentos, meios que liguem estes dois polos. Sou livre
para transitar: eu não amo ninguém. Nem ela, que um dia me fez movimentar. Meu erro,
foi fazer isso em sua direção, por ver sentido em seu centro. Por isso, quando penso
nela, me sinto ao longe, pairando no ar. Na mirante periferia do céu do meu mundo...
No
maior laboratório experimental subatômico do hemisfério sul, localizado em
ponto estratégico sobre o aquífero Guarani, em Piraquara/PR, cientistas
tentavam a mais de 50 anos desvendar um dos mais intrigantes mistérios da
humanidade: identificar e isolar a “partícula do amor”. Após uma infinidade de
testes, envolvendo um sem número de acelerações e colisões de moléculas entre
si, oriundas de secções quânticas cardíacas e cerebrais de cadáveres de pessoas
apaixonadas e não apaixonadas, chegou-se à conclusão da inexistência de tal
partícula, posto que sua massa atômica foi definida como zero, ou seja,
incompatível com a vida e a morte. O mais perto que o valor atribuído a este número
chegou foi da partícula da invenção, denotando-se que aquela, está apenas
aproximada desta, e ainda por uma pequena fração de tempo. Portanto, concluíram
os cientistas: O AMOR NÃO EXISTE. O comandante-em-chefe do laboratório, Dr Pedo
Tomás Hawk, concedeu entrevista à repórter Fabi Luson:
// -
Dr, boa tarde. O que significa para a humanidade esta descoberta sobre a
inexistência da partícula do amor?
-
Infelizmente, para alguns, é uma má notícia. Mas para a humanidade, é um salto
tão grande quanto o de Neil Armstrong, em 1969.
-
Por que o Sr considera “má noticia”?
-
Porque muita gente nesse mundo, acredita que o amor tem consistência, massa,
matéria, essência até, como se fosse um grão de areia por exemplo.
-
Mas se ele não é nada disso, como é que as pessoas amam?
-
Boa pergunta, garota. Como o amor tem número de massa atômica igual a zero,
está próximo do número de massa atômica da invenção, já identificado como
ínfimo, irrisório, mas existente. Essa proximidade nos leva a crer que eles têm
a mesma significância, sentido, razão de ser, entende? Já conhecemos e
catalogamos a invenção, portanto...
-
Não seria mais certo dizer “ilusão” ao invés de “invenção”?
-
Não. Porque a ilusão, é a criação espontânea a partir de algo existente. Na
invenção, cria-se forçadamente a partir de algo pré-existente.
-
Um tanto confuso, Dr.
-
Lhe explico. Iludir-se, é fantasiar em cima do que já existe: ir um dia morar
numa determinada praia, por exemplo. Já inventar, é elucubrar em cima dos seus
sonhos com uma praia que você nunca viu antes, então inexistente para você, pois vem antes do que eventualmente exista. Os dois, diferem da vontade: esta, é ir mesmo morar lá, só não se sabe quando.
-
Mas como uma praia que eu nunca vi pode ser considerado algo pré-existente?
-
Fácil. A nova praia existe, mas você ainda não a conhece certo? O que existe
são os seus apetrechos praianos: a sua cadeira, o seu guarda-sol, a sua
esteira, o protetor solar, a canga, o biquíni, o chapéu de sol, etc...
-
Sim, mas e daí?
-
Daí que você fica passeando pela vida abarrotada de tralhas procurando uma
praia pra se encostar. Quando encontra, descarrega feito estivador. O problema,
é que as pessoas não devem andar por aí abarrotadas de quinquilharias marítimas,
pois a relação ser humano/praia, só pode se iniciar a partir do encontro, e não
estar pré-existente a ele.
-
E o que isso tem a ver como o amor?
-
Isso chama-se invenção. Você tem todo seu material e atribui a uma praia
qualquer uma emoção e uma sensação, sem considerar respectivamente razão e
sentido: amar antes do amado...amar antes de sentir...não pode isso. E junto com isso traz expectativas, sem considerar perspectivas. Traz
ainda sonhos, deixando de lado a consciência. Desejos, sem se importar com as
direções. Salivas, suores e hormônios, sem se preocupar com saúde. Você cria
uma relação fantasiosa sobre um material que você já leva consigo.
-
Mas o que seria amar alguém então?
-
Talvez fosse melhor não carregar nada consigo em sua caminhada. Seguir leve,
sem emoções, sensações, expectativas, sonhos, desejos, salivas, suores nem
hormônios, deixando pra brotar tudo isso quando e se você encontrasse uma
praia. Mas, cientificamente...
-
Não consigo estabelecer nexo com o caso das partículas.
-
Vamos lá. Tudo na natureza que é dúplice, deve surgir ou nascer conjuntamente,
ao mesmo tempo. Veja nosso experimento:
pegamos o coração de um apaixonado, seccionamos em diversas partes até
encontrar o nó sinoatrial. Este, foi esquartejado e bombardeado à nível nuclear de sua última
célula pulsante, até se esvair em gás: nada restou, tudo se dizimou, nada ficou, por
conclusão o amor não existe.
-
Mas o que é que existe então, Dr?
-
Existe um cabedal de coisas que as pessoas ditas apaixonadas ou amadas ou algo
que o valha, inventam e lançam no espaço, coisas que eu já disse. Pois nossa
capacidade criativa é deslocada do mundo profissional e arrastada para o
relacional, onde inventamos a tal emoção, acusando o outro como causa dela.
-
Seria como uma nuvem em torno de um sentimento, então?
-
Isso, você está quase entendendo, mas esqueça da palavra sentimento, fique só
com a nuvem.
-
Mas as nuvens fazem chover, Dr!
-
Vá até uma nuvem, e veja o que há dentro dela. Tente trazer algo de lá.
-
Mas eu me emociono quando estou ao lado do meu namorado Paulão. O que é isso
para o Sr?
-
Isso é a consequência da sua invenção. Você trouxe para o Paulão, tudo aquilo
que você já viveu, e tudo o que ainda não viveu também. Ou seja, ele é para
você uma consequência das suas experimentações, ora sucessos, ora frustrações.
Paulão serve como seu depósito, você acha que precisa ser fiel em nele
depositar.
-
Muito materialista isso, me desculpe, Dr.
-
Sim, isso mesmo: tratamos aqui de materializar o que não existe! Por isso os
relacionamentos não dão certo.
-
Mas e aqueles que dão?
-
São pura convenção. São as invenções mais elaboradas, mais adornadas, mais enfeitadas, mais cheias
de penduricalhos e balangandãs e outras coisas mais que o casal inventa para se sustentar no ar, pois não isolamos a
molécula do amor. Identificamos apenas os integrantes das nuvens que os amantes
desenham ao redor do nada. São líquidos, que ressecam no tempo e no espaço.
-
Mas como nada Dr, se Paulão me vira a cabeça? Fico molhadinha em sua presença?
-
Paulão vira, revolve, mexe é nos seus objetos de praia. Ele arma o guarda-sol, abre a cadeira,
estende a esteira, tira a sua canga, amarra e desamarra o biquíni, passa protetor em você e por aí vai. Vocês
não adquiriram nada juntos, não se conheceram na praia, compartilham a rede
social, mas não a realidade. Ele trouxe a prancha dele, a bola de futebol, o bermudão, o
chinelo...
-
Eu queria entender, mas não consigo, confesso. Acho que o Sr nunca foi amado.
-
Ahahaha. Você está num laboratório científico, não num consultório psicológico,
minha querida. Mas eu lhe respondo: eu penas gostei de alguém. Ela, não sei se ainda
gosta de mim. Vivemos juntos mas não nos amamos, porque O AMOR NÃO EXISTE: hoje eu posso dizer
isso com base científica! Eureca! Uhull, como vocês escrevem por aí!
-
Arrá! Então significa dizer que o gostar é uma partícula que foi isolada?
-
Claro, há mais de 20 anos. Cuja massa atômica é infimamente superior a da
invenção, entende? Podemos calcular o gostar, como aquele sentimento que eu
pedi para você deixar em reservado agora pouco.
-
Algo mais vocês descobriram desta vez, digno de destaque?
-
Sim, nossa equipe B fez pesquisas intensas e conseguimos isolar o silêncio.
Conclusão: O SILÊNCIO É A VOZ MAIS FORTE. Que fala mais alto, que grita mais
longe, que diz mais coisas e que toca mais fundo. Iniciamos os trabalhos em
maio, demorou alguns meses, mas pudemos reconhecer enfim que o silêncio é capaz
de impedir praticamente tudo, até mesmo uma nova amizade, um afeto sem nome, um
gostar sem desejo, algo fraterno sem intenções. Seu peso molecular é tão alto,
que ainda não conseguimos um cantinho na tabela periódica dos elementos para
oficializá-lo regularmente. Em breve, divulgaremos tal descoberta.
-
Puxa...mas então...Paulão...paixão...quer dizer que é tudo invenção?
-
Além disso, é também uma confusão fonética, que atrapalha a semântica da coisa:
achamos ser sensação e emoção, aquilo que na verdade não passa de invenção e elucubração.
Rica língua portuguesa, onde podemos mas não devíamos roubar palavras chiques
para vestirmos realidades mórbidas.
-
Ok, Dr. Obrigada pela entrevista, aguardaremos a publicação oficial de sua
tese. – Fabi equilibrava lágrimas nas pálpebras trêmulas de imaginar.
-
Não há de quê, mocinha. Mas não se avexe, tudo na vida que exige reflexão, é
mesmo difícil de se compreender. Apareça lá em casa, leve o Paulão que eu
explico melhor nossa histórica descoberta pra vocês.
-
Onde o Sr mora?
-
Em Pontal do Paraná.
-
Obrigada, não quero saber de praia. //
ENTÃO
EU ME PEGO PERGUNTANDO: O QUE EU ESTOU FAZENDO AQUI, NESTE BLOG? QUE COMPETÊNCIA,
CAPACIDADE OU QUALIFICAÇÃO EU TENHO PARA FALAR DE AMOR? CHEGA DISSO TUDO NÉ? DEU PRA MINHA BOLINHA VIRTUAL. TAMBÉM ROUBO PALAVRAS
CHIQUES DA RICA LÍNGUA PORTUGUESA, COMO POESIA, POEMA E CONTO, PARA VESTIR
MINHAS DIVAGAÇÕES SENSORIAIS QUE EU LANÇO E LARGO POR AQUI, ELAS NÃO PODEM SAIR DE MIM E CHEGAR
NUAS, O BLOGGER ME CENSURARIA. PENSO QUE DR PEDO ESTÁ CERTO. É O FIM DOS FINS, POIS ATÉ CAZUZA, QUE EU
ODEIO, TAMBÉM ESTAVA CERTO: “O NOSSO AMOR A GENTE INVENTA PRA SE DISTRAIR, E QUANDO
ACABA A GENTE PENSA QUE ELE NUNCA EXISTIU”. AIAI...PAULÃO E FABI SABEM NADA DA VIDA, INOCENTES. ÀS VEZES EU PENSO QUE SERIA MELHOR VIVER ASSIM, SEM SABER MUITO DA VIDA.
POIS QUANTO MAIS A GENTE SABE, MAIS EVITA ACELERAÇÕES E COLISÕES. E SE O CERTO PARA
A EVOLUÇÃO DA ESPÉCIE NESTE MOMENTO FOR ISSO MESMO, SOFRER PARA APRENDER? SERIA EU
UM BOIADEIRO ERRANTE? SERIAM OS DEUSES ASTRONAUTAS? LÁ SEI, COMO DIRIA KELLEM PATRÍCIA, A PARAENSE TARADA FILHA DO SARGENTO GENTE-FINA. A MAIORIA DAS PESSOAS ESTÁ PRONTA,
COM SUA CÔMODA DE AMOR PRA DAR. GAVETAS VAZIAS, NEM CABEM APETRECHOS DE PRAIA,
DÃO O QUE NÃO EXISTE, FOI INVENTADO. E EU AQUI, TAMBÉM BOTANDO SAL NESSA SOPA RALA, TAMBÉM DANDO
MILHO AOS POMBOS, SEM CANGA PRA TIRAR NEM EM QUEM PASSAR PROTETOR. ACHO QUE EU PRECISO
ME REINVENTAR: VOU PRA PONTAL ESSE FIM DE SEMANA, BATER UM PAPO COM DR
PEDO À BEIRA-MAR SOB UM GUARDA-SOL QUALQUER, COMER CAMARÃO-AO-BAFO COM CERVEJA
ARTESANAL. OU ENTÃO LIGAR PRA FABI, PERGUNTAR SE ELA QUER UMA DEMORADA SESSÃO DE
MASSAGEM TARUMÂNTIKA SEM SEXO, BESUNTADA DE ÓLEO RELAXANTE, COISA QUE EU APRENDI COM A MINHA AMIGA SOLIDÃO: DAR PRAZER ÀS OUTRAS, UM BEM-ESTAR ÉTICO E SEM PRECONCEITO. PAULÃO NÃO PRECISA SABER.
NÃO HÁ TRAIÇÃO NESTE MUNDÃO: “o amor não existe”. TOMARA QUE, DURANTE A SESSÃO,
FABI CONVERSE BASTANTE COMIGO...
p.s.: desculpa aí, Cazuza! Mas Poeta, é o Caetano...
tó essa homenagenzinha pra você,
afinal tudo na vida tem sua exceção: "Poema", versão do Ney, é a tua.
Abrazz, Edw: em busca do pote de ouro (sanidade)...
A
certeza de conhecer o mesmo, afasta o sentido de uma convivência ruim.
É
ruim, mas já se sabe por quê, há ausência de dúvidas.
Parece
que é melhor do que encerrar.
É
melhor do que ficar sozinho.
É
melhor do que ainda ter que descobrir certezas num outro alguém.
É
quando o pior parece melhor.
Um
absurdo relacional, mas o carimbo da união tem valor social.
A
imagem da união, a marca da união, o símbolo da união.
União,
não importando de que forma ela ocorra.
E
assim em seu meio ambiente inúmeros casais continuam aparentemente juntos.
-
Vamos pedir uma pizza?
-
Sim. Pra mim calabresa e aliche.
-
Mas eu quero quatro queijos e Califórnia.
-
Fazem tantos pedaços assim?
-
Claro, é só pedir.
Quando
chegou, os sabores estavam todos amontoados num canto da pizza, culpa de uma curva
do motoqueiro, coisas da vida, curvas da vida, estrada da vida.
- Alô! Pedimos uma pizza aí agora pouco e ela veio
toda misturada, revirada, parece um angu! Nem dá pra identificar os pedaços!
Tal
qual o relacionamento deles. Pedaços juntados, sem sabor nenhum...
[Moral
da estória: tem gente que curte levar a vida em pedaços.]
Músicas
Acidentais: "Pedacinhos" / "O Motoqueiro" / "Estrada da Vida"
nota do autor: que bosta de postagem! é fase de transição, fazer o quê...fica como homenagem ao Zé Rico. mas está totalmente sujeita à exclusão por motivo de força menor, caso infortuito, falta de inspiração...contagem regressiva: 10-9-8-7...
Ando na beira do precipício.
Minhas manifestações me empurram para o abismo. Mas eu resisto equilibrando com
maestria a minha loucura de caminhar assim, entre palavras. Elas não estão no
solo, elas estão soltas feito móbiles ou dentes de leão suspensos no espaço. Porém, elas bem me sustentam. Atravesso noites e dias,
mares e montanhas, dores e alegrias, sóis e tempestades, amores e desamores,
tudo suportado sobre as minhas velhas palavras, que sempre formam novas frases: sendo assim, elas não são velhas, são na verdade outras palavras. Uns andam dentro de automóveis, outros movem-se através de relacionamentos e há muitos que se deslocam por intermédio de seus ofícios. Eu, passo longe disso. Porque nada disso me conduz, eu sigo através do que eu sou. Mesmo assim, distante, há gente me pedindo ajuda
ultimamente. Ofereço-a com prazer, sou solidário. Decerto, eles têm medo de
caminhar à margem de si mesmos, afastando-se do núcleo tradicional e conservador, é o receio de que os limites possam ser
rompidos, e eles tenham que abraçar a chance de se transformar. Eu nunca me demorei em meu centro.
Lá eu já conheço, o que eu quero é viajar, centrifugamente. Fronteiras, aduanas, alfândegas, cá estou eu, um
nômade por excelência, sempre a passear. Aqui o clima é mais intenso, as cores
são mais diversas, as perspectivas são mais claras. Não há tanto sonho: estou
bem mais perto do amanhecer. Ouço ruídos de toque de alvorada. Lembro-me da Marinha,
e do cerimonial à bandeira que eu oficialmente conduzia ao nascer do sol. Hoje não mais o sargento,
quem arria sou eu. A cada rajada de vento, a cada voo de pássaro, cada música lenta,
cada turbilhão de palavras chegando, sempre faço uma nova saudação à vida. Não preciso de uma vegetação humana, ou de
uma fauna mineral. Eu só preciso escrever. Escrever me mantém no beiral. Na iminência
de tudo o que eu quero, de tudo o que eu não posso e de tudo o que eu mereço. Já
me desprendi de todas as coisas, já me desapeguei de todas as mulheres, hoje eu
sou livre para escrever o que quiser, sobre quem quiser, sem razões nem emoções
explicativas ou justificantes. Estou além do nada, onde de coisa nenhuma se depende. Livre
em demasia, vou até mais uma linha, outro despenhadeiro: não tenho vertigem, não
tenho sentimentos, posso cair sem me machucar, falecer sem morrer: transcender. Penso que já sou parte do elemento
água. Estou liquefazendo o meu jeito de amar...
Nem uma. Nem duas, nem três.
Tenho visto muitas, mas muitas, mas muitas pessoas presas. Em pleno Estado
Democrático de Direito, o qual vale apenas em tese, teoria, papel, manual, discurso no que se refere aos seus relacionamentos.
Porque as pessoas estão vivendo presas. Não em celas ou em unidades prisionais,
elas estão presas num tipo de cárcere modificado: o seu próprio passado. Parece
não haver mais chances. Que não existem possibilidades, novidades, que tudo
remete à (falsa) segurança daquilo que já se foi, como se fosse seguro se
apoiar no que já não mais está. Se houve solução de continuidade, por que
insistir? Até que ponto recordar é
viver? Trazer tudo de volta, sentimentos que se foram em tempo e espaço,
tentando acomodar num cantinho de nosso hoje. Sei que isso é um pouco de tudo.
E também é bastante do nada ou do muito pouco que se vive no presente, pálido de sensações
importantes. Mas só por isso temos que voltar de ré ou na contramão até os dias
de outrora felicidade (ainda supondo que havia)? Ninguém pode suportar a atual realidade zen sem remeter
súplicas ao ontem? Onde está a força, a coragem, o discernimento, as demais
virtudes, o amanhã onde está? Por que
razão da manhã se faz a tarde, e desta a noite, todos os dias o mesmo recado da
natureza, se ninguém vê nem sente? Fico indignado com a falta de credibilidade em si
mesmo, no sentido de se pensar e querer dias melhores pra frente, coisa que não suporta
dias passados lá atrás. É muito pior voltar, por já se saber o que vai
acontecer no meio. Mas parece que o risco do regresso é calculado, o do futuro
não. Já se sabe o que houve por lá, ao contrário do surpreendente amanhã. Não
basta uma boa memória, uma boa recordação do que já era, há de se ressuscitar
forçadamente aquilo que foi bom, sem importar o que juntamente tenha sido ruim, pior ou 'desconstrutivo'. Minha indignação termina, pois não posso perder meu tempo com a
perda de tempo que os outros têm por perderem de conhecer o seu próprio futuro. A vizinha
voltou com o antigo namorado. Geraldo disse que queria fazer passeios com Nice
que há tempos se recusa em assumi-lo. Zé Roberto continua pensando na esposa que o
deixou há mais de dez anos. Soraia cultiva sua viuvez como se Pedro tivesse sido o
último homem da Terra. Estevão deita-se toda noite sem coragem para se
divorciar. Joelma não desiste de alguém que já se foi, mesmo sutilmente dispensado por ela. Rose não larga do amante que nunca a assumirá. Enquanto isso, Rafaela está pedindo o próximo em seu rodízio de gentes. E tantos outros. Muitas, mas muitas,
mas muitas pessoas presas. É tanta reminiscência fervendo que eu fui atingido
por uns pingos e tive que voltar e copiar o começo desse texto. Penso que a
sociedade está se desfazendo da sua ordem. Da sequência de passado-presente-futuro, ignorando que isso é um curso natural das vidas, sendo que voltar atrás é como se o espaço
intervisse no tempo: grandezas de dimensões distintas, imiscíveis, impossíveis. Eu
não sou assim. Caminho só, mas leve. Não admito levar em minha bagagem, pessoas
que não me consideraram na estrada, desistindo da minha companhia e vice-versa, questão de (falta de) empatia: não merecem que
eu volte atrás. Precisam, as pessoas, resgatarem sua noção de orgulho, seu senso de justeza, seus critérios de perspectivas, seus sonhos de esperança em algo realmente novo, livre e incomparavelmente melhor e maior: autocuidado, valorização de si próprio. Só porque quanto mais velho a gente fica, mais consciência tem daquilo
que é ou pode ser O OUTRO, bem separando do que sempre foi e será O MESMO. O passado, são livros. O presente, são estantes. O futuro, são páginas
em branco. Quanta preguiça desse povo ao meu redor escrever a sua própria história...(prefiro chamar de preguiça aquilo que na verdade é medo...é que às vezes eu sou paciente)
"Estou apaixonado por mim Que vou pedir à minha mão direita, Que ela pare de escrever sobre afetos que eu não faço jus Paixões que eu não vejo, E amores que jamais serei.. Basta-me, sozinho Que não precisarei ter alguém além de mim mesmo Então eu finjo que eu me satisfaço Que sou minha própria paixão e que me amo E assim vou levando a vida, Paralelamente aos horizontes Sem riscos de desencontros Pois sei muito bem sobre aquilo que eu não sou..." - Bertold Brown
/A tese do porão. Todo mundo tem
o seu porão. Cada porão, é o verdadeiro “asilo inviolável do indivíduo”, onde
nunca poderemos entrar e jamais imaginar o que há dentro. Alguns, mantém a
porta aberta. Outros, abrem-na de vez em quando, pois é preciso circular oxigênio.
Mais perigosos, são os que raramente a abrem, em geral o fazem nos piores
momentos, inesperada e irreconhecivelmente. Estes, são os prescindíveis.../
Seu Alípio – A Antítese
do Sótão
/A antítese do sótão. Um erro culturalmente
clássico. Confusão semântica por parte de um povo oprimido que ignora conceitos.
Na verdade, quando falam em porão (inferior), querem dizer sótão (superior). O sótão, que é mais próximo do pensamento, núcleo de todos os sentimentos jamais toráxicos. As janelas dos
sótãos são os olhos, através dos quais podemos observar e muito. Não há perigo para
quem tem coragem de olhar nos olhos de outrem, e vice-versa. Imprescindível é quem tem a sua casa
arrumada.../
CONTRAPONTO
[Chamavam de sótão a esse quarto
do terceiro piso do casarão, com um banheiro e a sacada. Combinava bem o nome:
uma palavra triste e sozinha. A porta rangeu como estas velhas madeiras agora,
mas em vez de maresia pairava ali um cheiro forte de alfazema. A mulher de
branco, moradora do sótão, voltou para nós um rosto interrogativo. Parecia
alegre por nos ver mas também assustada como se não soubesse o que lhe
trazíamos: o bem, o mal. Catarina vive naquele sótão e só raras pessoas lá
sobem para levar-lhe comida, limpar o quarto ou visitá-la. Até que um dia, não
aguentando mais, se joga da sacada, suicidando-se e libertando-se de seu
“exílio”.]